Situação: minha mae diz que vai fazer carne de porco pro almoço. Para uma pessoa normal isso apenas poderia significar mais gases. Para um judeu, uma ofensa. Mas como não sou uma pessoa normal nem judeu, escrevi isso. Pode ser que tenha uma continuação. Ou não.

Não sabia ao certo que lugar era aquele. Agora tudo não passa de uma breve lembrança. Talvez infantil ou até da minha vida adulta. Não me pergunte coisas que não sei responder. O que realmente importa é que isso aconteceu. Estava escuro, mas consegui ver 3 ou 4 pessoas agachadas formando um circulo ao redor de alguma coisa. Conforme me aproximava conseguia distinguir mais detalhes do quarto e de seus estranhos ocupantes. Havia um cheiro pobre no ar, mas ao contrario do que eu esperava, o aposento tinha uma limpeza digna de hospital. O branco das paredes ofuscava um pouco a minha vista. Estava ficando enjoado com o cheiro de desinfetantes e carne pobre, mas minha curiosidade apagou qualquer extinto de precaução que pudesse ter. Continuei avançando e finalmente vi o que aquelas pessoas estavam fazendo. Eram três homens, um deles careca, suas roupas estavam sujas de lama e sangue. No momento apenas fiquei espantando, mas agora me pergunto como aqueles homens podem ter entrado naquela sala sem tê-la sujado. Eles estavam arrancando a carne de uma carcaça de porco podre. Seus movimentos eram privados de qualquer tipo de consciência. Seus olhos estavam vidrados enquanto mastigavam a carne. O necrochorume escorria de suas bocas, sujando o chão e as roupas. Aquele liquido fétido se espalhava pelo chão e chegou até meus pés que, percebi apenas naquele instante, estavam descalços. A onda de nojo que seria esperada não vem. A curiosidade era maior. Para de olhar para o quarto e olho para mim mesmo. Usava apenas uma camisa branca que ia até meus joelhos. Meus pés estavam sujos e molhados pelo contato com o necrochorume. Continuei andando em volta deles. Eles tinham acabado com a carne e agora estavam roendo os ossos. Seus dentes eram tortos e quebrados e suas gengivas estavam em carne viva. Pedaços do tutano caiam no chão. De repente a curiosidade é substituída pelo medo. Um deles se vira para mim. Parece surpreso com a minha presença. Seus olhos continuam vidrados e seu sorriso mostra que sua boca está negra. Mesmo com o medo crescendo dentro de mim minha atenção se desviou para uma pequena figura em um dos cantos da sala. Parecia uma criança, vestida do mesmo modo que eu, e parecia se divertir vendo aquelas pessoas agindo como animais. Antes que pudesse pedir ajuda ele diz algo que me persegue até hoje: 'Você não pode pedir ajudar a si mesmo. Eu não quero sair daqui. E você também não.' Não me pergunte mais nada, depois disso não consigo mais me lembrar de muita coisa. Tudo que eu sei é que me mudei daquele apartamento na mesma semana. O açougue do andar de baixo havia sido fechado pela vigilância sanitária após eu denuncia-lo. E, cinco anos depois, aquele lugar ainda fedia como um animal morto que, depois de sua carne apodrecer, é deixado ao sol. Não aguentava mais aquilo.

Não se preocupem, o blog não morreu. Apenas está sendo mantido vivo por aparelhos e, por motivos ecológicos, sendo obrigado a beber a própria urina. Mas isso não vem ao caso.

Como o próprio nome diz, vou fazer um post sobre todos os animes que eu vi até hoje (pelo menos, os que eu lembro ter visto). Vou tentar não contar spoilers de nenhum. Provavelmente não vou conseguir, mas o que vale é a intenção.

11 eyes: O anime até que é legal. Alguns jovens com poderes especiais acabam preso numa espécie de universo paralelo e precisam lutar contra alguns monstros. Disse que o anime era legal, não original kkkk. Acontece muita merda com os personagens, as batalhas são boas e o final teve uma reviravolta que eu não esperava. Mas no final, os furos da história são resolvidos de um jeito escroto e clichê: tudo era um universo paralelo.

Amagami SS: Amagami SS e SS + Plus ( e qualquer outra continuação mega master blaster que venha a seguir) falam basicamente da mesma coisa. O cara tomou um chá de cadeira de uma mina no natal (eu tomo um todos os dias e nem por isso tó reclamando kkk) e, desde então tem dificuldade de interagir com outras minas. Então, milagrosamente ele começa a se dar bem com varias. O anime mostra vários arcos, cada arco mostrando a sua relação com uma garota. No SS + Plus, a relação com cada garota se aprofunda mais e ele descobre porque foi abandonado como um cão sarnento no natal. Também mostra que ele transou ao menos duas vezes (duas vezes mais do que eu).

Another: muito se falou e ainda se fala sobre esse anime que diziam ser uma revolução dos animes de terror. Só que não. Uma sala de aula que é alvo de uma antiga maldição, uma pessoa que deveria estar morta fica interagindo normalmente com eles, e todos os alunos vão morrer até que descubram quem é o morto. Aí entra a musa do anime, Misaki Mei. O protagonista não serve pra nada e a solução acaba caindo sobre Misaki. Não é tudo que eu esperava e me senti muito idiota com o final, mas é um anime legal.

Baka to test: o protagonista é tão idiota que acaba sendo muito foda. Os alunos travam batalhas entre si e seus pontos de vidas são as medias de cada matéria. Pense em como seria um Digimon escolar. Claro que todos os clichês de anime sobre escola estão lá. Destaque pra irmã mais velha do protagonista que, aparentemente, incentiva o irmão a ter relações beeeemmmmmm intimas com seus coleguinhas.

Binbougami ga!: a protagonista é tão sortuda nasceu com o cu colado na lua mas tão sortuda que ela rouba a sorte das pessoa ao seu redor sem querer. Uma deusa da pobreza é mandada para a Terra para resolver a situação. Mas como isso é um anime, nada é tão fácil assim. To no aguardo pela segunda temporada.

Black Lagoon: se Tarantino produzisse um anime seria parecido com Black Lagoon. Um executivo japonês é capturado por um bando de terroristas enquanto fazia a entrega de material ilegal. Após sua firma mandar uma equipe para mata-ló (o que envolve o embate mais épico entre um helicóptero e um navio) ele resolve trabalhar com os terroristas. O anime tem vários personagens bizarros: um casal de gêmeos psicopatas, uma freira filha da puta, uma empregada com uma mala-metralhadora, etc. Alias, a empregada rendeu um OVA Black Lagoon: Roberta’s Blood Trail. Sem falar que a musica de abertura é muito foda.

Boku Wa Tomodachi Ga Sukunai: um bando de forever alones se junta para formar um clube. O anime trata das tentativas deles de fazerem outros amigos. Parece deprimente e idiota, mas até que é engraçado. Destaque para as brigas das duas protagonistas pra decidirem quem é a mais foda. Ainda não comecei a ver a segunda temporada.


Obs: a 2ª menina da direita pra esquerda, vestida de empregada, na verdade é um muleque.

Bokusatsu Tenshi Dokuro-chan: O protagonista vai ser um grande gênio no futuro. O problema é que ele também é um lolicon. O anime mostra o envolvimento do protagonista com uma anja, Dokuro-chan, vinda do futuro para impedir que ele faça algo que afete a ordem natural das coisas. Não vou dizer o que ele faz. Os episódios são curtos e, como eu gosto, cheios de violência e sangue. Também mostra como os desenhistas não sabem desenhar menininhas: se você vir uma mina alta e com peitões não se anime muito, ela só tem 9 anos. Ao contrario de vários outros animes, a musica de abertura mostra claramente o que acontece no anime.

Por hoje é só. Esperem por mais.

Um pequeno texto que eu escrevi. Não me perguntem de onde tirei essa ideia.

Há algo no caos que me acalma. Algo que me excita. A sutil união entre o deslumbramento e o pânico me fascina. O caos é a base de tudo. A destruição pode gerar algo maravilhoso. E isso, cara, realmente me assusta. Os homens matariam a si mesmos se isso pudesse acalmar seus espíritos inquietos. Livra-lós do caos. O caos já teve outros nomes. Revolução. Guerra. Paz. Destruição. Mas, talvez o pior tenha sido o nome mais antigo dele. Deus. Os que evoluem são aqueles que se permitem lutar. Contra e para o caos. Somos criaturas acostumadas com isso. Não ficamos satisfeitos com a calmaria. Todos reagimos aos gritos de dor e agonia. Em alguns geram medos. Para outros, excitação. Todos temos em nós gritos e lamentos que nos acompanham para a eternidade. E mesmo assim continuamos em nossa busca diária por um pouco de caos para podermos começar algo novo. Para podermos dizer que realmente estamos vivos. Para provar que os gritos valeram para alguma coisa.

Não dirigirás, o seu carro ou o do próximo, como um babaca.

Faz um bom tempo no Jalopnik Brasil foi postada uma matéria do Alex Lloyd, piloto inglês (sem equipe fixa, por sinal) que explicava porque carros alugados eram mais divertidos que outros. Na matéria ele explica que, com carros alugados, você não precisa se preocupar com desgaste de freios e outras coisas que você se preocuparia se o carro fosse seu. Ele ainda descreve uma competição dele com alguns jornalistas com carros alugados que acabou gerando danos consideráveis.

Entendo o que ele quis dizer. Desde que você pague o seguro para a locadora, os danos que possam ocorrer são problema da locadora. Nos anos 60, a Hertz, famosa locadora nos EUA, que havia trocado a GM pela Ford, queria um substituto para o Corvette. Se a Ford não tivesse feito a heresia de Transformar o Thunderbird em um sedã, ele seria o substituto lógico. Mas o grande Carroll Shelby sugeriu uma série especial do Mustang, que pintada de preto e com racing stripes douradas ficou conhecida como Mustang GT350H. Dizem que varias unidades eram devolvidas com pneus carecas e marcas de adesivos na lataria.

Como eu disse, entendo o que ele quis dizer, mas não concordo com ele. Para mim, se você bate o carro que está dirigindo, você não é tão bom quanto pensa. Dirigir rápido não é necessariamente igual a correr. Sei por experiência própria como é estupido você emparelhar com um carro no semáforo e dar aquela arrancada fenomenal apenas para encontrar o próximo semáforo fechado também (que, alias acaba abrindo quando o outro carro tá chegando calmamente). Para dirigir rápido deve-se conhecer os limites de ambos, do carro e os seus próprios.

Em um ambiente controlado, como uma pista, alguns excessos são necessários para andar realmente rápido. Mas as ruas, com velhinhas atravessando e motoqueiros kamikazes, não é o melhor lugar para você colocar a prova seus ímpetos de piloto. Quem não consegue entender isso não passa de um idiota com carteira de motorista. E nossas ruas ruas estão cheias deles.

Gosto muito de carros. Espero sempre poder modificar meus carros de alguma forma para melhorar seu desempenho. Mas, mesmo assim, sei que nossas ruas estão assoladas de retardados que, só porque tem um papel atestando que podem dirigir, se acham os pilotos de fuga.

Bom, é isso. Esperem por mais. Ou não.

Cala-te a boca
E sente o silêncio que nos envolve
Negue teu corpo
E se torne parte do vazio
Abra teus olhos
Encontre a cólera em meus olhos opacos
Sinta o cheiro de ferro no ar
E apenas responda para esse corpo inerte
Porque meu sangue continua escorrendo por suas mãos?

Lei do mais forte

Dizem que a primeira lei do mundo foi a lei da sobrevivência, também conhecida como Lei do mais forte. O mundo sempre foi um lugar cruel e para os mais fracos só é permitido caírem em desespero diante da superioridade dos mais fortes.

Até hoje essa lei obsoleta segue imbatível.

Sou aquele que eu chamo de alvo. O ponto mais baixo da cadeia alimentar da nossa sociedade. Todos os dias eles acham necessário me lembrar que tenho uma vida horrível. Como se não soubesse disso. Para manter o equilíbrio do mundo, sempre haverá os fracos. Sempre me lembram que não há nada que possa fazer para mudar minha vida. Por eles, ela seria sempre repleta de rejeição, humilhação e escarnio.

Hoje decidi ser mais forte. A retaliação é esperada. Confesso que não esperava que meu sangue jorrasse desse jeito. Eles vão embora, com meu sangue impregnado em suas roupas, felizes por manterem a ordem natural.

Não sei bem o eu aconteceu comigo. Pode-se dizer que estou mais forte. Posso fazer coisas inimagináveis para outros humanos. Nem sei se ainda sou um humano. Vou fazê-los pagar pelo que fizeram comigo durante todos esses anos. Espero que não pensem que é vingança.

É a lei do mais forte.

Pequena creepypasta de um desenho que azucrinava minha infância. Quem adivinhar o desenho ganha um pirulito.

Ele pega os lapis de cor e gizes de cera sem muita firmeza. O atrito dos lápis com o papel é ouvido no grande corredor frio e branco. Figuras disformes começam a se formar e, para ele, representam uma vida normal para uma criança de quatro anos. Passeios com os pais, brincadeiras com os amigos, visitar os avos. Nada disso aconteceu com ele. Dentro daquele quarto ele só conhece a solidão, o desprezo e a pena estampados nos rostos das enfermeiras.

Não há nada nesse quarto que prove que uma criança ficou ali durante os últimos três anos. Aquela criança com olhar vago debaixo das cobertas não recebe visitas a muito tempo. Os brinquedos quebraram e foram jogados fora. As flores murcharam e foram jogadas fora. Só restaram alguns lápis e gizes de cera, cada vez mais curtos, e algumas folhas já amareladas.

“Será que fiz alguma coisa ruim e por isso papai e mamãe não vem me visitar mais?” pensa enquanto desenha um grande sol. “Os médicos sempre me colocam naquelas maquinas grandes e fazem um monte de coisas comigo. Deve ser algum castigo”

Ele é muito pequeno para entender as fofocas que as enfermeiras fazem pelos corredores. Convivendo com a morte e solidão todos os dias, o esporte preferido das enfermeiras, como boas sádicas que são, é discutir entre si as desgraças dos enfermos. Entre os corredores é famosa a história que os pais daquele garoto do quarto 205 são irmãos por parte de pai. Aparentemente, o cretino, após voltar da guerra, largou sua mulher e começou outra família. Eles só descobriram isso quando ela já estava gravida. Ela tinha medo que o aborto pudesse causar alguma complicação futura para ela. Isso causou um tipo raro de câncer na criança, fruto daquela relação incestuosa. Nos primeiros meses, seus pais iam todos os dias, mas depois que adotaram uma menina saudável, eles passaram a ir cada vez menos. Um dia eles não voltaram mais. Eles perderam o interesse naquele corpo tomado pela peste.

Chegou a hora dos remédios. Eles não servem para nada, apenas atrasam o inevitável e lhe garantem mais alguns dias de vida. Dias solitários. Enquanto ministra a dose diária dos remédios, a enfermeira tenta, como sempre, reconforta-lo:

― Não se preocupe, eles vão voltar.

Com a voz fraca e algo que deveria parecer um sorriso ele responde:

― Eu sei.

Quando está saindo, a enfermeira não consegue ouvir o resto da resposta.

“Eles vão voltar.” As palavras ecoam em sua cabeça, mas nada se ouve. “Mas não vai ser por mim.”

Pela primeira vez sente algo novo, além da solidão. Mesmo que ele não entenda isso direito, ele sente ódio. Ódio puro e simples. Mas esse novo sentimento não duraria muito. O caixão lacrado para evitar algum tipo de contaminação impede que seus pais o vejam pela ultima vez.

Eles recebem uma ligação urgente. Sua filha passou mal durante a aula de ballet e foi para o hospital.

Os quatro faróis rasgam a noite e o motor urra quebrando o silencio enquanto os largos pneus esmagam as folhas espalhadas pelo asfalto negro. Em sua boca o terceiro cigarro do dia e no porta-luvas seu revolver esperando para ser usado. “Quero chegar cedo para poder fazer uma grande recepção para ele.”

A pista de mão única é ladeada por arvores secas pela aproximação do inverno. “Quando tudo acabar vou passar uma temporada na Florida. Foda-se a empresa. De qualquer jeito continuo dono dela. Não preciso mais trabalhar. De agora em diante vou levar uma vida de rico esnobe.”

Os pensamentos sobre o futuro e a musica saindo dos alto falantes não conseguem afastar de sua cabeça uma ideia que o incomodava. É uma ideia idiota, mas ainda assim ele não consegue se livrar dela. Desde aquela terça não consegue parar de pensar nos seus problemas. “Acho que é isso que chamam de efeito borboleta. Tudo isso pode ter começado naquela briga ou no acidente do balanço. Eu ter sido internado em um manicômio. Ter me casado com uma puta. Não ter um bom relacionamento com meu único irmão vivo. Ter um maníaco me perseguindo. Tudo deve estar interligado com aquele maldito dia.”

Ensaia uma risada enquanto pega outro cigarro, mas a tosse o impede de rir e o faz pensar que essa ideia não é tão absurda. A pista se torna cada vez mais acidentada à medida que ele se aproxima da resposta da noite passada.

Dois cigarros depois finalmente chega ao seu destino. O velho portão está trancado e não há rastros de pneus. “Ele ainda não chegou. O convidado de honra deve chegar no melhor da festa.” Nos muros alguns folhetos colados sobre o acidente nuclear de 29 anos atrás. Tirando a ação natural do tempo, tudo parecia em ordem, como se ele apenas tivesse passado o fim de semana fora. Parecia que sua família o esperava na varanda da casa. Todos com um sorriso no rosto. Até mesmo Fred estaria sorrindo para ele. Não. Sua cicatriz estaria rindo dele.

Estaciona seu Mercury na frente da casa. Lembra-se da surra que Frank tomou por chamar o Ford Edsel do pai de “vagina dentada”. Coloca o revolver na cintura da calça enquanto sai do carro. “Apesar de tudo éramos uma boa família. Quando será que tudo começou a dar errado? Talvez seja mesmo o efeito borboleta.” Quem iria imaginar que aquela garota feliz das fotos iria encontrar o fim pelas mãos daquele que havia jurado ama-la? Ou que Will, rapaz atlético e fã de baseball, acabaria paraplégico por uma maldita guerra? Sua ultimas palavras foram “Tio Sam não cuida dos seus” enquanto sofria uma parada cardíaca na ala suja do hospital militar da cidade.

Acende outro cigarro enquanto olha para a antiga casa que se ergue imponente entre a grama morta e ervas daninhas. Acha melhor não entrar nela já que não sabe o estado dos alicerces. Olha para cima e vê as janelas amareladas pela poeira. Seu quarto ficava no ultimo andar. Fred estari8a esperando lá? Não. O lugar onde Fred o espera é mais escuro e frio. Mesmo com os braços e pernas quebrados ele o espera sorrindo. Sua cicatriz está rindo dele.

Andando sem rumo acaba encontrando o velho carvalho. Ele está seco, como todas as outras arvores, e as suas raízes aparentam estarem pobres. Aquelas imagens voltam aos seus olhos como um vídeo sem fim: para frente, para trás. O grito e o som de osso quebrando ecoando no silencio da tarde. Braços e pernas dobrados em ângulos estranhos. O sangue tingindo a agua do rio. O rosto virado e os olhos fitando o pequeno Tony na beira do barrando.

Deixa o cigarro cair. “Não posso perder o controle agora.” Respira tão profundamente quanto seus pulmões permitem. Ouve passos esmagando a grama morta. Ele se vira esperando encontrar o maníaco, mas...

Usando uma camisa branca e shorts azuis aquela criança o observa com curiosidade. Seu rosto está impassível, mas uma cicatriz abaixo do olho esquerdo sorri para ele.

―Não é possível – aponta o revolver para aquela figura de um metro e vinte – Você está morto. EU MATEI VOCÊ!

―Eu sei – os lábios da criança se contorcem em um sorriso – Só estou retribuindo o favor.

 

―Então é isso – ele chuta o corpo agonizando barranco abaixo e apanha o revolver, ainda quente pelo uso, do chão – Você morreu fácil demais.

O corpo de Anthony Cougar jaz no pequeno córrego como uma copia da morte de seu irmão. Seu sangue se mistura com a agua radioativa.

Enquanto caminha de volta para a van ele passa em frente da velha casa. “Belo carro. Teria sido ainda mais fácil se você tivesse entrado na casa. É incrível como você nunca suspeitou da notificação falsa que eu mandei.”

Já está dentro da van. Enquanto tira o traje de contenção, acende um cigarro e ri comemorando mais um trabalho bem feito. “É lindo ver a energia nuclear fazendo o trabalho sujo por mim. Hora de destruir a vida de mais alguém.”

A van parte deixando aquela área contaminada para trás com Frank Cougar relaxando no largo banco do motorista. O sangue ainda flui pelo corte e seus olhos fitam o local onde seu carrasco esteve. Seu nome foi Frederick Cougar. Ou seria Anthony Cougar?

Já passa da meia-noite. Só faltam dois dias para o inicio do resto de sua vida. Ele não pode contar com ninguém. Seus pais estão mortos e devido a discussões sobre a administração da firma não tem um relacionamento amigável com o ultimo dos seus irmãos. Aquela com a qual havia passado os últimos anos de sua vida estava sendo comida por vermes agora. “Até imagino o motivo do atraso na galeria. Se a policia examinasse sua virilha destruída aposto que achariam esperma de algum cliente ou ajudante. No final ela não passava de uma puta que encontrei durante uma viagem. Isso não importa mais.”

Ela o traiu. O conselho administrativo o traiu. Seu irmão adoraria vê-lo se perder no seu próprio desespero. Todos lhe deram as costas. Ele não pode culpa-los. Se pudesse também daria as costas para aquela figura decadente encolhida junto dos destroços de um notebook.

Gostaria de desistir de tudo, mas alguma coisa o impede. Entre uma serie de pensamentos acaba se lembrando d’O Iluminado. Já dominado pela loucura, Jack Torrance repete varias vezes coisas como “Venha e tome seu remédio como homem, seu cretino” e “Juro por tudo que vou fazer esse merdinha tomar o seu remédio” enquanto seu taco de roque assobiava pelos corredores escuros no meio das montanhas.

“Eles me traíram. Ele está brincando comigo. Que tipo de homem eu seria se não me vingasse?”

Se levanta e vai até um dos armários perto da televisão.

“Não tenho um bastão de roque, mas também tenho um jeito de obriga-lo a tomar seu remédio.”

Pega seu velho revolver Winchester e analisa sua empunhadura.

“Afinal que tipo de homem eu seria se não pagasse na mesma moeda?”

Já se fez essa pergunta a muitos anos. Talvez encontre finalmente a resposta.

“A matriarca Winchester era atormentada pelos espíritos das pessoas mortas por suas armas e mandou construir uma mansão com portas e escadas falsas, quartos invertidos e outras armadilhas para afugentar os fantasmas. Não preciso me preocupar com os mortos, no momento meu problema é um cretino que, tenho certeza, está vivo.”

Mira no aparelho de som e atira. O som grave ecoa pelas paredes. A casa permanece em silencio.

“Pelo menos por enquanto.”