É fato conhecido que um comercial bem formulado pode ditar tendencias. Uma frase ou ação de efeito e logo estarão na boca do povo. E exatamente por causa disso um comercial em especifico tem causado polemica.
A fala de um garoto num certo comercial de um odorizador de banheiros, aparentemente inocente, tem causado constrangimentos em todo o pais. Tornou fato comum banheiros em todo país serem muito disputados. Mas não qualquer banheiro, apenas os banheiros das casas onde algum dos moradores se chame Pedro. Pais de todo o país não sabem mais o que fazer: todo os dias que chegam em casa encontram varios amigos e conhecidos do bairro em sua casa com apenas um motivo: usar o banheiro.
"Nós nem temos esse maldito odorizador", declarou a mãe de Pedro Almeida. Em pouco mais de 20 minutos, tempo que nossa redação ficou na casa durante a entrevista, varias crianças vieram para usar o banheiro. "Não adianta fingir que não tem ninguém em casa. Eles pulam o muro, arrombam o portão e as portas. Eles não param até conseguir o que querem"
O governo, em caráter espetacular, garantiu a gratuidade nos cartórios para os Pedros que queiram mudar de nome. "Esse nome tem passado de geração em geração durante anos, mas não aguento mais. Os 'cagantes' incomodam os clientes do meu restaurante. E não comem nada" reclama Pedro de Alcântara, herdeiro de uma famosa rede de churrascarias.
Inexplicavelmente, a mudança de nome parece ser a unica solução para o problema. "Finalmente sei o que é ter um banheiro limpo" diz animado ex-Pedro da Silva, agora Fagundes.
Claro que há aqueles que acham que isso é apenas uma onda passageira. Muitos pais ainda querem colocar o nome em seus filhos, mas os cartórios foram notificados para desencorajar essa atitude. Para aqueles que se mostrarem irredutíveis, um termo de consentimento deve ser assinado.
Assista a reportagem no nosso portal e saiba de tudo sobre essa estranha epidemia.

Minha missão como escritor é contar mentiras do jeito mais verdadeiro possivel kkk Acho que nem preciso falar qual é o comercial em questão. O que acham

Porque me tornei escritor?

Numa roda de amigos essa pergunta me foi dada
E por cada um deles foi justificada

Primeiro a falar, com muita convicção
Mesmo com a voz pastosa e um copo na mão
Nickolas, cineasta semi-frustrado
Morador de Paulínia
Num quarto e sala alugado
”Não foi para pegar mulher, com toda a certeza
Pois nem o maior épico é capaz de lhe dar beleza
Nenhuma mulher deve ter dado a palavra
Caio, suas licenças poéticas me deixam em ponto de bala!”

Sua imitação de mulher menstruada
Arranca boas risadas
Quando todos se acalmam
Com um cubano entre os dentes
Bruna tenta controlar uma mesa de dementes
Tem casa, carro, filha e uma esposa ardente
Nada mal pra uma ilustradora independente
”Ser popular também não deve ter sido o objetivo
Ameaças de morte e processos enchem os seus arquivos
Desafetos na família crescem de maneira exponencial
Embora não ache isso mal
Apenas encurta sua lista de natal”

A maioria está bêbada demais até mesmo pra rir
Eu e meu terno surrado teremos a chance de nos redimir
Escritor por profissão
Hobbie: ficar enfurnado numa repartição
Olho pros lados para checar a plateia
Prestes a dizer algo que ninguém espera
”Prestem atenção
É difícil de crer
A minha verdadeira missão
É mostrar que o ‘porque’ acima deve ser”

A maior festa que se tem noticias. Desde os tempos antigos. Se você acha que se diverte indo nos points badalados dessa cidade fétida, saiba que ainda não viu nada. Apenas gastou dinheiro como um imbecil. Pergunte para quem realmente sabe das coisas “Onde posso me divertir?”. Nos galpões do antigo bairro industrial será a resposta. Ou, até mesmo, nas ruinas do velho castelo. Mas, se você não for o tipo certo, ele simplesmente vai levantar e você nunca mais verá aquele mendigo. Sou o organizador dessa festa, sou eu quem decide quem entra e publicidade não é necessária.

Não espere nada espalhafatoso nem requintado. Apenas um velho galpão industrial com as paredes sujas de fuligem. Se pesquisar um pouco vai descobrir que, durante a Revolução Industrial, o antigo dono reprimiu uma greve trabalhista. Como? Trancou as portas e, sentado confortavelmente em sua poltrona, atirou em todos os funcionários. A firma funcionou por mais 30 anos, até o dono morrer sem deixar herdeiros. Sentado nessa mesma poltrona, me sinto em êxtase, numa viagem que nem a mais pura metanfetamina é capaz de gerar. O cheiro de pólvora continua fresco mesmo depois de todos esses anos. Talvez até tenha conhecido o antigo dono, mas a idade e os exageros da vida moderna já me tiraram as velhas memorias.

Nada de carros imponentes e confortáveis. Alguns chegam a pé, imaginando que no fim da noite estarão tão chapados que ficaram incapazes de operar os três pedais, outros em pequenos hatchs mais velhos que seus motoristas, que se acham muito habilidosos e acostumados com qualquer tido de droga moderna. Ambos estão errados. Ninguém sai daqui, a menos que eu queira. Mas enquanto o rock for pesado e a bebida de graça, ninguém se preocupa em ir embora.

A temática de hoje é festa à fantasia, mas a grande maioria está usando roupas casuais e banais, o que me faz sentir falta da época dos longos vestidos e dos trajes de fino corte da aristocracia francesa. Vejo um rapaz com um moletom surrado e creme de barbear na boca simulando um lobisomem com raiva, um gordo espinhento apertado num velho terno puído numa caracterização chula do Drácula, uma moça com olhar injetado e uma fantasia minúscula de diabinha. Numa busca rápida encontro mais seis ou sete jovens em fantasias tão execráveis quanto às primeiras. Esses jovens. Eles não se importam com isso. Ficam felizes com musica boa e metanfetamina tão pura que deixaria o sr. White com inveja. E eu dou isso para eles. Isso e muito mais, mas também preciso de alguma coisa em troca.

Está chegando a hora. Poderia ter feito isso logo que entraram, mas sou o organizador dessa festa e as coisas acontecem do jeito que eu quero. Já estou velho, posso me dar esse tipo de diversão. Rebel Monster, da banda dinamarquesa Volbeat, sai dos alto-falantes e faz as paredes vibrarem. Faltam trinta segundos pra meia noite quando as maquinas de fumaça começam a funcionar. Poucos reparam e estão todos alucinados de qualquer forma, acham que é apenas mais uma viagem, que o moletom está se transformando em pelos e a espuma borbulhante começa a escorrer de sua boca, que as pernas da diabinha se fundem numa cauda com escamas e asas ossudas surgem das costas de vários convidados. O pânico demora alguns instantes para se instalar, com os gritos e lamentos de jovens drogados que não sabem ao certo que está acontecendo. Tudo está acabado antes mesmo da musica acabar. O cheio de sangue e carne crua é forte e preenche o velho galpão, mas sentado nessa velha poltrona o cheiro de pólvora ainda é mais inebriante.

E essa continua sendo a melhor festa de todos os tempos. Pergunte para quem realmente sabe das coisas. Eu vou confirmar. E se você tiver sorte, não vai ser convidado.

Para os poucos que visitam esse blog, não sei se vocês repararam mas as coisas andaram meio paradas por aqui.

Pra reverter a situação vo postar alguns trechos de alguns textos aleatórios:

O que você esperando? Porra, você é um merda mesmo! Não espera que eu mesmo puxe o gatilho não é mesmo? Sinta o ódio crescendo dentro de si enquanto meu sarcasmo te corroí por dentro. Qual é a dificuldade em atirar? Sinto minha têmpora queimar pelo cano da arma. Vamos, acabe logo com isso seu cretino. Acabe comigo e tenha uma vida normal. Pelo menos até você colocar a arma na própria boca e atirar. Eu sei que você vai fazer isso. Talvez daqui a 5 anos ou 5 dias. Não importa, meu sangue em suas mãos vai te amaldiçoar até a loucura. Eu sempre consigo o que eu quero. Tenha certeza disso.

Hora do show

Respiro com dificuldade o ar gelado. Sinto como se o ar perfurasse meus pulmões já castigados pelo cigarro. A neblina que toma as ruas me torna invisivel. É assim que deve ser. Meu proximo show não deve ser visto, apenas executado. Algo entre mim, ela e a neblina. Lá está ela saindo de casa sempre no mesmo horário. Nossoshow começa agora. A neblina se condensa em contato com a lamina prateada da faca. Ela é a estrela de hoje. Ela continua a camainhar. Mal sabe ela que está caminhando para o nada. Está na hora de me tornar visivel. Ela olha para mim e ve apenas um estranho. Quando vê a faca ela ve a morte. Mas já é tarde demais. A faca encontra seu lugar na carne. Uma, duas dez vezes. A neblina se torna vermelha. A faca retorna ao seu lugar de origem. Ela cai no proprio sangue. Nosso destino se separa novamente. Me torno invisivel. O show acabou.

Divina corrupção

Ele não entende o que está acontecendo. Sempre disseram que deus era justo. É justo que seus pais sejam mortos assim? É justo que ele seja tratado como um objeto? Argila simples e tosca que se tornaria formosa mas mãos de deus. Seus olhos estão opacos e vazios. Vazios como a sua vida a partir de agora. O amos dos pais foi tirado dele e vai ser preenchido aos poucos pelo ódio. Ele não sabe agora, mas esse ódio o fará ser maior que qualquer deus.

E essa é toda a verdade

Diabo, por que não posso simplesmente esquecer tudo isso. Foi legal enquanto durou, mas tudo chega ao fim. Tenho um bom emprego, uma geladeira cheia de cerveja e uma esposa com um belo par de peitos. Esse não é a base do sonho americano? Se eu simplesmente parasse de escrever poderia dormir cedo, não ficaria paranoico pelos varios copos de cafe e talvez pudesse pensar em ter um filho? A vida não seria tão mal assim.
A vida em sociedade é assim. Temos que ir abrindo mão das coisas que gostamos até o mundo achar que merecemos alguma coisa de volta. Abrir mão daquilo que somos apenas pra deixar a porra do mundo feliz. Eu poderia ter uma boa vida. A base dos meus problemas é exatamente a base da minha vida atual. Desistir de escrever seria esquecer tudo q eu passei até agora. E isso não vai acontecer. Pelo menos não agora.

 

Lutando bravamente contra minha protelação consegui terminar essas singela versão das superpoderosas. Pode não ser muito fofa, mas foi feita com tudo que há de bom kkkk

O ruído vindo do gravador sobre a mesa marca o inicio da conversa.

“Fita numero 14. Entrevista com Anthony Jerkins, cientista integrante da equipe original por trás do projeto Superpoderosas.”

A minha frente um homem muito mais velho que eu, com os cabelos grisalhos fugindo da testa em um terno risca de giz me mostra um sorriso apagado e começa a falar.

Enquanto fala termos técnicos que, francamente, não presto muita atenção, penso que, para um recém-formado em jornalismo este pode ser meu ápice ou minha ruina. Todas as obras anteriores foram superficiais, mas estou certo que vou superar tudo que já foi escrito sobre as Superpoderosas. Mas se falhar, isso pode significar o fim da minha carreira antes mesmo de começar.

Respiro profundamente e parto para o ataque.

―Desculpe sr. Jerkins, mas não tenho interesse nesses termos técnicos. Como você mesmo deve saber eles podem ser acessados por qualquer um na Wikipédia. Quero saber o que existe realmente pro trás do projeto Superpoderosas.

Ele para atônito. Parece surpreso que alguém tenha a audácia de interrompê-lo durante seu importante relato. Mas, então seu semblante se acalma e retira uma pequena garrafa prateada de dentro do terno e dá um longo gole nela.

―Sei que é filho de mãe árabe. Como não me ofereceu nenhuma bebida antes da entrevista imagino que siga os ideais da religião da sua mãe. Devo dizer que respeito isso. Mas, se você quer realmente saber a verdade deve deixar que eu beba o que eu quiser. De acordo?

Engulo, envergonhado, o protesto que iria iniciar e aceno positivamente com a cabeça.

―Muito bem. Sabe, espero que seu livro seja melhor do que todo lixo deprimente que foi escrito sobre elas...

―Também espero isso, sen...

―Cale a bola e me deixe falar. Apenas me interrompa se for perguntar alguma coisa importante para o livro ou quando perguntar algo a você.

― Pode-se dizer que tudo começou após os ataques nucleares a Washington e ao Vaticano. Você devia ter o que quando aconteceu? 10? 12 anos?

― Nove anos, senhor.

― Caramba, o tempo voa quando se está ocupado. Mas enfim, talvez você não se lembre mas varias agencias de segurança pelo mundo todo sofreram ataques armados. Tudo isso causou mudanças drásticas na sociedade de então. Era cada um por si. Liberdade total porra nenhuma! As ruas viraram um verdadeiro inferno. Vários bandidos e meta-humanos tinham escapado das prisões. E mais monstros eram criados por cientistas loucos brincando de Deus. As pessoas precisavam de novas esperanças. Mais importante, o povo americano precisava de uma nova esperança. Alguns membros do governo que sobreviveram aos ataques decidiram que os Estados Unidos trariam esperança para o mundo. Assim surgiu os alicerces do Projeto Superpoderosas.

Ele dá outro gole na garrafa, que imagino conter vodca pelo cheiro forte. O cheiro forte chega ao meu nariz como uma lembrança dos velhos tempos e acende um velho desejo. Ele se enganou em um ponto. Deixei de beber após quase perder um ano da faculdade e não porque o Deus que minha mãe acredita diz que beber é errado. Aprendi por conta própria que Deus não existe. Ou, se existe, não está nem aí com suas crias.

― Antes de continuar... você tem algum interesse particular nas Superpoderosas? Esse é um tema muito complexo para um recém-formado.

― Quanto tinha 15 anos fui feito refém durante um assalto a banco. Os bandidos mataram meu pai, policial aposentado, na minha frente. Teriam matado minha mãe também se as Poderosas não tivessem aparecido.

― Comovente, mas acho que a verdade vai abalar a imagem que você tem delas. Já estava decidido que os Estados Unidos seriam responsáveis por acabar com aquela bagunça e trazer esperança para todos. Só era necessário decidir como. Naquela época considerávamos impossível controlar os impulsos de um meta-humano, já que ninguém sabia ao certo quais eram os efeitos colaterais da contaminação do DNA humano com códigos genéticos artificiais. Nesse caso a solução obvia seria o uso de unidades autônomas, mas, como qualquer robô, eles tinham limitações mecânicas. E todos os dias surgiam monstros mais fortes. Chegamos a conclusão que a solução poderia estar nos próprios humanos. Nosso cérebro limita a capacidade dos músculos. Fizemos alguns testes em soldados em que desativamos as conexões cerebrais relacionadas aos limites os músculos. Sem esses “freios” dados por Deus e com alguns remédios para o fortalecimento dos músculos esses soldados conseguiam erguer até 400 kg com a mesma facilidade que você levanta um lápis. Com o uso de armaduras bio-orgânicas aumentando seus poderes exponencialmente nos havíamos encontrado o que os Estados Unidos precisava.

― O senhor fala de armaduras bio-orgânicas. Elas teriam alguma relação com o Homem de Ferro?

― Odeio admitir, mas sim. O viado do Tony Stark nos ajudou nessa parte do projeto. Apesar de estupidamente fortes, os soldados ainda eram humanos. Se levassem um tiro poderiam morrer como qualquer um. O Stark era um gênio, pena ter morrido daquele jeito.

― Se os testes com os soldados foram bem-sucedidos porque nunca vi um soldado em uma armadura arrancando as vísceras de um meta-humano? Porque delegar um serviço desses para três meninas de cinco anos?

― Basicamente por dois motivos. Aparentemente, uma vez que o corpo humano já tenha chegado ao seu limite muscular ele fica, digamos que, ligado a esse limite. É claro que eles eram incrivelmente fortes, mas se passassem um pouco do ápice da força seus músculos eram simplesmente estraçalhados pelo stress. Nem as armaduras podiam evitar isso. O segundo motivo é puramente estético: depois do que aconteceu com Tony o governo achou que as pessoas ficariam com medo de verem armaduras cruzando os céus. E, francamente, não posso dizer que o governo estivesse errado: após ter a armadura hackeada por nanotecnologia alienígena só restou ao Tony usar o pouco de consciência que lhe restava para cometer suicídio. Por isso começamos a fazer experimentos com bebes natimortos.

― Essa pesquisa com natimortos tem ou teve alguma relação com a Hydra?

― Não nos compare com aqueles açougueiros – seu rosto se enche de ira – Eles estavam brincando de Deus apenas por diversão. Dizem que a X-23 é na verdade, uma filha do Wolverine.

Da outro gole e se acalma.

― Bem, voltando ao assunto, o fato das conexões cerebrais dos bebes natimortos não estarem completamente formadas nos deu infinitas possibilidades. Isso permitia que modificássemos toda sua estrutura, tanto física como psicológica, para obtermos o melhor rendimento possível.

― Com tantas modificações genéticas não seria correto afirmar que vocês estavam cada vez mais próximos de criarem robôs orgânicos?

― Digamos que conseguimos unir o melhor dos dois mundos. Com a capacidade adaptativa que apenas um organismo vivo tem e a frieza e rapidez de raciocínio de um autônomo criamos novas esperanças para a América e o mundo. Deus fez um bom trabalho, mas acho que o superamos.

Sua risada já está meio pastosa pelo uso da bebida. Seu hálito chega até meu nariz. Engulo em seco enquanto faço algumas anotações.

― Mas nem tudo foi fácil. Os gritos delas eram horríveis. Muitos não conseguiam dormir. É compreensível, afinal estávamos estraçalhando seus sistemas moleculares e reconstruindo como se fossem feitas de Lego. Pelo menos o governo liberou verba para a construção de laboratórios a prova de som.

Imagino que aquilo devesse ser uma piada, mas fico em duvida. Ele parece falar muito serio.

― Fizemos um bom trabalho. Mas as superpoderosas não eram perfeitas. E nem precisavam ser. O povo não podia saber que suas esperanças tinham falhas graves.

― E quais seriam essas falhas?

― Nada que não pudéssemos superar. Aparentemente, Deus não gosta que alguém mexa na programação do seu brinquedinho. As modificações feitas causavam muita instabilidade molecular. Quanto mais se esforçavam, mais perto elas ficavam de um colapso completo.

― Já que vemos elas voando por ai todos os dias suponho que vocês conseguiram resolver o problema.

― Sim, mas pode-se dizer que a solução foi um pouco anti-etica: quando uma delas chega perto do colapso a descartamos e a substituímos por um clone que foi mantido em hibernação até manter seu ápice de força. O responsável por cuidar que a mudança não seja percebida pelas meninas restantes e pela população é o Professor Untônio.

― Pode me dizer quantas vezes essa troca foi feita?

― A Docinho está próxima de ser trocada pela oitava vez. As outras suas foram trocadas seis vezes cada.

― Mas vocês não continuaram as pesquisas para impedir a instabilidade molecular?

― Porque continuaríamos? Iriamos apenas gastar mais dinheiro dos contribuintes. Não mesmo. Pra que gastar mais tempo e dinheiro para resolver um problema que pode ser contornado de maneira mais fácil e barata?

― Mas você não acha que elas mereçam viver uma vida longa como qualquer outro? Afinal, como você mesmo disse, elas são as responsáveis pro trazer esperanças para o mundo.

Ele solta o ar como se fosse realmente entediante explicar algo tão simples.

― Escute, moleque. Os EUA tem muito dinheiro. Dinheiro para derrubar governos – praticamente cuspia as palavras – Dinheiro para iniciar guerras. E, finalmente, dinheiro para comprar esperança. Nos apenas criamos a melhor alternativa.

Atira a garrafa vazia no chão e pega outra no paletó.

― Elas apenas fazem o que foram programadas para fazer. Elas não são capazes de se rebelar. Caso façam isso, mecanismos de defesa iriam causar o colapso instantâneo – fala como se explicasse algo para um doente mental – Nos mandamos nelas. Elas não precisam de uma vida normal. Se você não levou uma bala no rabo naquele dia não deve agradecer a elas. Deve agradecer a mim.

― Mas...

― Mas o caralho! – sua voz está tão cheia de ira que chega a cuspir enquanto fala – Todos são iguais a você. Se esquecem de quem mantem as ruas livres de todo o lixo meta-humano. Precisamos lembrar para as pessoas o que é realmente. Você da mais valor pra sua vida quando vê alguém morrendo na sua frente.

― Você está insinuando que...

― As superpoderosas não chegaram antes no banco porque não deixamos? Talvez sim, talvez não. Mas quem se importa? Um velho cretino morreu, mas varias pessoas foram salvas inclusive você. Não está feliz por estar vivo?

A fúria arde dentro de mim. Durante toda minha vida lamentei a morte do meu pai, mas sempre achei que pudesse contar com as superpoderosas. Tudo não passou de um esquema armado. Armado por esse velho maldito, bêbado e careca. Não consigo me manter imparcial. Pressentindo minhas vontades ele parte para as ultimas palavras:

― Vai fazer o quê? Aposto que está louco para descarregar um revolver na minha cara. Mas você não fará isso. Você tem muito a perder. Sua mãe, seus amigos, sua vida.

Pula da poltrona com uma agilidade surpreendente e agarra meu pescoço. Sinto uma picada no ombro.

― Sabe, poderia ter participado das Olimpíadas. Mas isso não importa agora. Você tem incomodado muita gente importante com suas perguntas. Todas as obras anteriores foram certinhas porque decidimos que seriam. O povo não precisa saber a verdade. A verdade botaria em maus lençóis varias pessoas que se envolveram nesse projeto. Quem se importa se nossas ações foram anti-eticas se conseguimos alcançar nossos objetivos? O mundo fechou os olhos quando a Rússia causou um acidente nuclear para transformar Chernobyl em um laboratório de pesquisa dos efeitos da energia nuclear em pessoas. Muitos meta-humanos que infestam nossas ruas saíram de lá.

Sinto meus músculos relaxarem. Ele saca uma pistola cromada com silenciador. O reflexo ofusca a minha vista.

― Precisávamos te calar. Todos tinham medo de agir. Não posso culpa-los. Como você, eles têm algo a perder. Eu não. Minha esposa morreu há alguns meses e estou lutando contra o câncer há vários anos. Eu sou o homem perfeito para isso. Posso mata-lo agora, cometer suicídio e ninguém vai sentir nossa falta – coloca a garrafa na minha boca e me engasgo com a vodca correndo pela minha garganta – Tome seu ultimo trago. Uma equipe de limpeza virá para se livrar das provas e dos corpos. Serei enterrado como herói, já você, como indigente. Espero que entenda. São apenas negócios.

Ouço o som abafado da bala atravessando meu pulmão. Enquanto perco a consciência ouço outro disparo e o som de sangue espirrando.

A fita continua gravando o borbulhar do sangue até que tudo acaba.

Fiquei meio puto com alguns problemas q eu tive essa semana. Bateram no meu carro, não tó conseguindo cancelar a porra do FIES e, ainda por cima, quase fui atropelado por uma velha. Pelo menos isso me ajudou a ter minar essa ideia q eu tive faz algum tempo.

Para mim, seres perfeitos são extremamente entediantes. Não vejo vantagem em viver uma normalidade maçante. Viver uma rotina que, como um relógio, sempre volta ao inicio após um ciclo completo. Nem tenho certeza se isso pode ser considerado viver. Seres perfeitos apenas passam pela vida. Não sofrem. Não se machucam. Não se revoltam. Não vivem. Porra, e mesmo assim, tentam incessantemente apagar tudo aquilo que eu fui. Tudo que eu sou. E tudo que eu posso ser. Me transformar em algo vazio. Em algo amorfo. Em algo perfeito. Ser apenas mais um ciclo com inicio, meio e fim pré-estabelecidos. Não vai rolar, nem ferrando. O desprezo, o ódio, o amor, a raiva, a agonia. É isso que eu sou. É isso que eu fui e sempre vou ser. Quer gostem ou não.

Não se preocupem, o blog não morreu. Apenas está sendo mantido vivo por aparelhos e, por motivos ecológicos, sendo obrigado a beber a própria urina. Mas isso não vem ao caso.

Como o próprio nome diz, vou fazer um post sobre todos os animes que eu vi até hoje (pelo menos, os que eu lembro ter visto). Vou tentar não contar spoilers de nenhum. Provavelmente não vou conseguir, mas o que vale é a intenção.

11 eyes: O anime até que é legal. Alguns jovens com poderes especiais acabam preso numa espécie de universo paralelo e precisam lutar contra alguns monstros. Disse que o anime era legal, não original kkkk. Acontece muita merda com os personagens, as batalhas são boas e o final teve uma reviravolta que eu não esperava. Mas no final, os furos da história são resolvidos de um jeito escroto e clichê: tudo era um universo paralelo.

Amagami SS: Amagami SS e SS + Plus ( e qualquer outra continuação mega master blaster que venha a seguir) falam basicamente da mesma coisa. O cara tomou um chá de cadeira de uma mina no natal (eu tomo um todos os dias e nem por isso tó reclamando kkk) e, desde então tem dificuldade de interagir com outras minas. Então, milagrosamente ele começa a se dar bem com varias. O anime mostra vários arcos, cada arco mostrando a sua relação com uma garota. No SS + Plus, a relação com cada garota se aprofunda mais e ele descobre porque foi abandonado como um cão sarnento no natal. Também mostra que ele transou ao menos duas vezes (duas vezes mais do que eu).

Another: muito se falou e ainda se fala sobre esse anime que diziam ser uma revolução dos animes de terror. Só que não. Uma sala de aula que é alvo de uma antiga maldição, uma pessoa que deveria estar morta fica interagindo normalmente com eles, e todos os alunos vão morrer até que descubram quem é o morto. Aí entra a musa do anime, Misaki Mei. O protagonista não serve pra nada e a solução acaba caindo sobre Misaki. Não é tudo que eu esperava e me senti muito idiota com o final, mas é um anime legal.

Baka to test: o protagonista é tão idiota que acaba sendo muito foda. Os alunos travam batalhas entre si e seus pontos de vidas são as medias de cada matéria. Pense em como seria um Digimon escolar. Claro que todos os clichês de anime sobre escola estão lá. Destaque pra irmã mais velha do protagonista que, aparentemente, incentiva o irmão a ter relações beeeemmmmmm intimas com seus coleguinhas.

Binbougami ga!: a protagonista é tão sortuda nasceu com o cu colado na lua mas tão sortuda que ela rouba a sorte das pessoa ao seu redor sem querer. Uma deusa da pobreza é mandada para a Terra para resolver a situação. Mas como isso é um anime, nada é tão fácil assim. To no aguardo pela segunda temporada.

Black Lagoon: se Tarantino produzisse um anime seria parecido com Black Lagoon. Um executivo japonês é capturado por um bando de terroristas enquanto fazia a entrega de material ilegal. Após sua firma mandar uma equipe para mata-ló (o que envolve o embate mais épico entre um helicóptero e um navio) ele resolve trabalhar com os terroristas. O anime tem vários personagens bizarros: um casal de gêmeos psicopatas, uma freira filha da puta, uma empregada com uma mala-metralhadora, etc. Alias, a empregada rendeu um OVA Black Lagoon: Roberta’s Blood Trail. Sem falar que a musica de abertura é muito foda.

Boku Wa Tomodachi Ga Sukunai: um bando de forever alones se junta para formar um clube. O anime trata das tentativas deles de fazerem outros amigos. Parece deprimente e idiota, mas até que é engraçado. Destaque para as brigas das duas protagonistas pra decidirem quem é a mais foda. Ainda não comecei a ver a segunda temporada.


Obs: a 2ª menina da direita pra esquerda, vestida de empregada, na verdade é um muleque.

Bokusatsu Tenshi Dokuro-chan: O protagonista vai ser um grande gênio no futuro. O problema é que ele também é um lolicon. O anime mostra o envolvimento do protagonista com uma anja, Dokuro-chan, vinda do futuro para impedir que ele faça algo que afete a ordem natural das coisas. Não vou dizer o que ele faz. Os episódios são curtos e, como eu gosto, cheios de violência e sangue. Também mostra como os desenhistas não sabem desenhar menininhas: se você vir uma mina alta e com peitões não se anime muito, ela só tem 9 anos. Ao contrario de vários outros animes, a musica de abertura mostra claramente o que acontece no anime.

Por hoje é só. Esperem por mais.

Um pequeno texto que eu escrevi. Não me perguntem de onde tirei essa ideia.

Há algo no caos que me acalma. Algo que me excita. A sutil união entre o deslumbramento e o pânico me fascina. O caos é a base de tudo. A destruição pode gerar algo maravilhoso. E isso, cara, realmente me assusta. Os homens matariam a si mesmos se isso pudesse acalmar seus espíritos inquietos. Livra-lós do caos. O caos já teve outros nomes. Revolução. Guerra. Paz. Destruição. Mas, talvez o pior tenha sido o nome mais antigo dele. Deus. Os que evoluem são aqueles que se permitem lutar. Contra e para o caos. Somos criaturas acostumadas com isso. Não ficamos satisfeitos com a calmaria. Todos reagimos aos gritos de dor e agonia. Em alguns geram medos. Para outros, excitação. Todos temos em nós gritos e lamentos que nos acompanham para a eternidade. E mesmo assim continuamos em nossa busca diária por um pouco de caos para podermos começar algo novo. Para podermos dizer que realmente estamos vivos. Para provar que os gritos valeram para alguma coisa.

Cala-te a boca
E sente o silêncio que nos envolve
Negue teu corpo
E se torne parte do vazio
Abra teus olhos
Encontre a cólera em meus olhos opacos
Sinta o cheiro de ferro no ar
E apenas responda para esse corpo inerte
Porque meu sangue continua escorrendo por suas mãos?

Lei do mais forte

Dizem que a primeira lei do mundo foi a lei da sobrevivência, também conhecida como Lei do mais forte. O mundo sempre foi um lugar cruel e para os mais fracos só é permitido caírem em desespero diante da superioridade dos mais fortes.

Até hoje essa lei obsoleta segue imbatível.

Sou aquele que eu chamo de alvo. O ponto mais baixo da cadeia alimentar da nossa sociedade. Todos os dias eles acham necessário me lembrar que tenho uma vida horrível. Como se não soubesse disso. Para manter o equilíbrio do mundo, sempre haverá os fracos. Sempre me lembram que não há nada que possa fazer para mudar minha vida. Por eles, ela seria sempre repleta de rejeição, humilhação e escarnio.

Hoje decidi ser mais forte. A retaliação é esperada. Confesso que não esperava que meu sangue jorrasse desse jeito. Eles vão embora, com meu sangue impregnado em suas roupas, felizes por manterem a ordem natural.

Não sei bem o eu aconteceu comigo. Pode-se dizer que estou mais forte. Posso fazer coisas inimagináveis para outros humanos. Nem sei se ainda sou um humano. Vou fazê-los pagar pelo que fizeram comigo durante todos esses anos. Espero que não pensem que é vingança.

É a lei do mais forte.

Os quatro faróis rasgam a noite e o motor urra quebrando o silencio enquanto os largos pneus esmagam as folhas espalhadas pelo asfalto negro. Em sua boca o terceiro cigarro do dia e no porta-luvas seu revolver esperando para ser usado. “Quero chegar cedo para poder fazer uma grande recepção para ele.”

A pista de mão única é ladeada por arvores secas pela aproximação do inverno. “Quando tudo acabar vou passar uma temporada na Florida. Foda-se a empresa. De qualquer jeito continuo dono dela. Não preciso mais trabalhar. De agora em diante vou levar uma vida de rico esnobe.”

Os pensamentos sobre o futuro e a musica saindo dos alto falantes não conseguem afastar de sua cabeça uma ideia que o incomodava. É uma ideia idiota, mas ainda assim ele não consegue se livrar dela. Desde aquela terça não consegue parar de pensar nos seus problemas. “Acho que é isso que chamam de efeito borboleta. Tudo isso pode ter começado naquela briga ou no acidente do balanço. Eu ter sido internado em um manicômio. Ter me casado com uma puta. Não ter um bom relacionamento com meu único irmão vivo. Ter um maníaco me perseguindo. Tudo deve estar interligado com aquele maldito dia.”

Ensaia uma risada enquanto pega outro cigarro, mas a tosse o impede de rir e o faz pensar que essa ideia não é tão absurda. A pista se torna cada vez mais acidentada à medida que ele se aproxima da resposta da noite passada.

Dois cigarros depois finalmente chega ao seu destino. O velho portão está trancado e não há rastros de pneus. “Ele ainda não chegou. O convidado de honra deve chegar no melhor da festa.” Nos muros alguns folhetos colados sobre o acidente nuclear de 29 anos atrás. Tirando a ação natural do tempo, tudo parecia em ordem, como se ele apenas tivesse passado o fim de semana fora. Parecia que sua família o esperava na varanda da casa. Todos com um sorriso no rosto. Até mesmo Fred estaria sorrindo para ele. Não. Sua cicatriz estaria rindo dele.

Estaciona seu Mercury na frente da casa. Lembra-se da surra que Frank tomou por chamar o Ford Edsel do pai de “vagina dentada”. Coloca o revolver na cintura da calça enquanto sai do carro. “Apesar de tudo éramos uma boa família. Quando será que tudo começou a dar errado? Talvez seja mesmo o efeito borboleta.” Quem iria imaginar que aquela garota feliz das fotos iria encontrar o fim pelas mãos daquele que havia jurado ama-la? Ou que Will, rapaz atlético e fã de baseball, acabaria paraplégico por uma maldita guerra? Sua ultimas palavras foram “Tio Sam não cuida dos seus” enquanto sofria uma parada cardíaca na ala suja do hospital militar da cidade.

Acende outro cigarro enquanto olha para a antiga casa que se ergue imponente entre a grama morta e ervas daninhas. Acha melhor não entrar nela já que não sabe o estado dos alicerces. Olha para cima e vê as janelas amareladas pela poeira. Seu quarto ficava no ultimo andar. Fred estari8a esperando lá? Não. O lugar onde Fred o espera é mais escuro e frio. Mesmo com os braços e pernas quebrados ele o espera sorrindo. Sua cicatriz está rindo dele.

Andando sem rumo acaba encontrando o velho carvalho. Ele está seco, como todas as outras arvores, e as suas raízes aparentam estarem pobres. Aquelas imagens voltam aos seus olhos como um vídeo sem fim: para frente, para trás. O grito e o som de osso quebrando ecoando no silencio da tarde. Braços e pernas dobrados em ângulos estranhos. O sangue tingindo a agua do rio. O rosto virado e os olhos fitando o pequeno Tony na beira do barrando.

Deixa o cigarro cair. “Não posso perder o controle agora.” Respira tão profundamente quanto seus pulmões permitem. Ouve passos esmagando a grama morta. Ele se vira esperando encontrar o maníaco, mas...

Usando uma camisa branca e shorts azuis aquela criança o observa com curiosidade. Seu rosto está impassível, mas uma cicatriz abaixo do olho esquerdo sorri para ele.

―Não é possível – aponta o revolver para aquela figura de um metro e vinte – Você está morto. EU MATEI VOCÊ!

―Eu sei – os lábios da criança se contorcem em um sorriso – Só estou retribuindo o favor.

 

―Então é isso – ele chuta o corpo agonizando barranco abaixo e apanha o revolver, ainda quente pelo uso, do chão – Você morreu fácil demais.

O corpo de Anthony Cougar jaz no pequeno córrego como uma copia da morte de seu irmão. Seu sangue se mistura com a agua radioativa.

Enquanto caminha de volta para a van ele passa em frente da velha casa. “Belo carro. Teria sido ainda mais fácil se você tivesse entrado na casa. É incrível como você nunca suspeitou da notificação falsa que eu mandei.”

Já está dentro da van. Enquanto tira o traje de contenção, acende um cigarro e ri comemorando mais um trabalho bem feito. “É lindo ver a energia nuclear fazendo o trabalho sujo por mim. Hora de destruir a vida de mais alguém.”

A van parte deixando aquela área contaminada para trás com Frank Cougar relaxando no largo banco do motorista. O sangue ainda flui pelo corte e seus olhos fitam o local onde seu carrasco esteve. Seu nome foi Frederick Cougar. Ou seria Anthony Cougar?

Já passa da meia-noite. Só faltam dois dias para o inicio do resto de sua vida. Ele não pode contar com ninguém. Seus pais estão mortos e devido a discussões sobre a administração da firma não tem um relacionamento amigável com o ultimo dos seus irmãos. Aquela com a qual havia passado os últimos anos de sua vida estava sendo comida por vermes agora. “Até imagino o motivo do atraso na galeria. Se a policia examinasse sua virilha destruída aposto que achariam esperma de algum cliente ou ajudante. No final ela não passava de uma puta que encontrei durante uma viagem. Isso não importa mais.”

Ela o traiu. O conselho administrativo o traiu. Seu irmão adoraria vê-lo se perder no seu próprio desespero. Todos lhe deram as costas. Ele não pode culpa-los. Se pudesse também daria as costas para aquela figura decadente encolhida junto dos destroços de um notebook.

Gostaria de desistir de tudo, mas alguma coisa o impede. Entre uma serie de pensamentos acaba se lembrando d’O Iluminado. Já dominado pela loucura, Jack Torrance repete varias vezes coisas como “Venha e tome seu remédio como homem, seu cretino” e “Juro por tudo que vou fazer esse merdinha tomar o seu remédio” enquanto seu taco de roque assobiava pelos corredores escuros no meio das montanhas.

“Eles me traíram. Ele está brincando comigo. Que tipo de homem eu seria se não me vingasse?”

Se levanta e vai até um dos armários perto da televisão.

“Não tenho um bastão de roque, mas também tenho um jeito de obriga-lo a tomar seu remédio.”

Pega seu velho revolver Winchester e analisa sua empunhadura.

“Afinal que tipo de homem eu seria se não pagasse na mesma moeda?”

Já se fez essa pergunta a muitos anos. Talvez encontre finalmente a resposta.

“A matriarca Winchester era atormentada pelos espíritos das pessoas mortas por suas armas e mandou construir uma mansão com portas e escadas falsas, quartos invertidos e outras armadilhas para afugentar os fantasmas. Não preciso me preocupar com os mortos, no momento meu problema é um cretino que, tenho certeza, está vivo.”

Mira no aparelho de som e atira. O som grave ecoa pelas paredes. A casa permanece em silencio.

“Pelo menos por enquanto.”

A chuva ainda cai enquanto ele chora copiosamente em um canto da sua sala à prova de som. Não há problemas em um homem perder as esperanças e desabar, desde que ninguém esteja vendo. A única pessoa que o lembrava de que fora daquele jogo doentio havia um mundo feliz, agora estava morta. Destroçada, sua esposa o havia deixado sozinho. Não. Aonde quer que esteja o maníaco estava o observando, pronto para o próximo movimento nesse tabuleiro torto e gastos onde as peças estavam espalhadas.

Se senta na sua velha poltrona e começa o ritual de beber e fumar novamente. Teria que esperar o próximo movimento do seu oponente se quisesse realmente acabar com isso. Enquanto acende um cigarro seu notebook, em cima da mesa de centro, emite um bip. Havia recebido um e-mail. Alias dois.

O fato de seu próprio e-mail pessoal ser o remetente não o incomodava mais. Ficou surpreso por estar olhando para um possível final dos acontecimentos que começaram naquela manhã chuvosa de terça. Que tal irmos brincar no meu balanço favorito dia 25? Aquela pergunta infantil significava que em três dias tudo poderia acabar. “Finalmente esse merda vai sair do buraco sujo onde se esconde e me falar o seu preço. Em três dias vou voltar a ter uma vida normal de novo.”

Passa os olhos pelo titulo do segundo e-mail enquanto toma um gole de uísque e acende outro cigarro. Você choraria por alguém capaz de fazer isso? Tragando e soltando a fumaça de maneira preguiçosa ele pensa no significado daquela frase. “Aposto que ele espera que eu fique surpreso com isso. Devem ser fotos da época que Alice era uma prostituta. Isso poderia ser um choque para os nossos amigos, mas me casei sabendo da antiga vida dela. Mas realmente estou curioso para saber como ele as conseguiu.”

Um bocejo cortado pela tosse o faz perceber que está com sono. Aperta o botão para desligar o notebook, mas nada acontece. A seta do mouse começa a se mexer. “Tomou o controle do meu notebook. Pois bem, me mostre logo o que você quer.” Com um clique o segundo e-mail é aberto. Ao invés das fotos da sua mulher há apenas um arquivo anexado. Um vídeo de cinco minutos.

Depois de alguns segundos de estática era possível ver um homem entrando no foco da câmera, como se tivesse acabado de liga-lá. De repente, provavelmente colocada na edição do vídeo, começa a tocar Police Truck do Dead Kennedys. O homem para no meio da sala, olha para a direita e volta para a câmera. É possível vê-ló mudando a direção da câmera. O novo foco da câmera mostra alguns cavaletes, uma porta branca aberta para um quarto escuro e grandes janelas com vista para um jardim. “É o estúdio da Alice.” Mais alguns segundos de estática e o verdadeiro show começa. Embalados pela voz de Jello Biafra, sua mulher e um homem estão entrelaçados numa apresentação doentia de bondage. Tony já praticara bondage com sua mulher algumas vezes, mas sempre teve medo de machuca-lá de verdade. Mas lá estavam, imortalizadas em uma câmera, as imagens de sua mulher se derretendo em orgasmos enquanto apanhava de um desconhecido. A musica termina e começa novamente.

“Uma puta...”

Os gemidos aumentam à medida que aquele homem explora aquele corpo esbelto e branco que Tony achou pertencer a ele.

“Ela era uma puta quando nos conhecemos...”

Os gemidos são encobertos pela musica.

“... ela não podia ter filhos por causa de um aborto mal feito. Eu a amava. Eu fiz de tudo para ela ter uma vida normal...”

Seus longos cabelos loiros sobre a mesa fria no centro do estúdio. O homem esbarra em um dos cavaletes derrubando tinta pelo chão.

“... e ainda assim ela era uma puta suja!”

Agora acabou. Os gemidos da mulher e os acordes finais da musica se tornam agudos e destorcidos. O mesmo som é repetido cinco vezes.

O grito. O som de osso quebrando.

Seu grito ecoa nas paredes brancas do aposento. Aos seus pés, os destroços do notebook. A musica parou, mas continua ecoando em seus ouvidos. O grito e o som de osso quebrando.

A chuva que cai lava a cova recém-aberta. Homens e mulheres de preto se reúnem para a ultima homenagem para Alice Taylor Cougar. Parentes, clientes da galeria e conhecidos começam a se dispersar quando as primeiras pás de terra são jogadas sobre o vistoso caixão de mogno. Agora que todos foram embora, ele observa o trabalho dos coveiros em tampar aquela ferida aberta no meio do gramado da ala sul do cemitério municipal. Ele não se importa com a chuva lavando seu rosto e seus pontos abaixo do olho.

Começa a caminhar para o estacionamento. Não há mais nada para ver. O corpo destroçado de sua mulher jaz embaixo da lama agora. A logica lhe diz que foi apenas uma fatalidade, mas ele sabe que não. “Foi esse maldito. A pericia encontrou estranhos cortes nas tubulações do óleo de freio e direção hidráulica que não pareciam ser decorrentes do impacto do carro contra a encosta.” As lagrimas saem dos seus olhos e se confundem com a chuva que cai. “Devia chamar a policia. Mas não tenho provas. Os remetentes desses malditos e-mails são meus e-mails pessoal e profissional. O hacker que eu paguei não conseguiu descobrir o IP do cretino. Sei que a policia me considera suspeito. O que tiver que fazer, vou ter que fazer sozinho.”

Se estivesse calmo pensaria de outra forma. Mas a logica não é mais importante. Isso é uma guerra. E guerras são criadas e ganhas pela loucura.

Está sentado na poltrona de couro surrado na sua sala a prova de som. Na sua frente, além da bebida e do cinzeiro habituais, há vários álbuns de fotos espalhados pela mesa de centro e pelo chão. Enquanto o resto do mundo usa suas câmeras digitais Alice ainda era fiel ao filme. Ela revela as fotos no quarto escuro do seu estúdio. Estão lá os registros das ultimas viagens e festas. O gelo do copo já começa a derreter. “Alice realmente está demorando.”

Na parede ao lado da escada o sistema de som toca alguns acordes destorcidos. “Marilyn Manson, suponho.” Conforme o tempo passa as lembranças ficam mais velhas. Os primeiros anos de casamentos, a lua de mel na Alemanha, as farras da época de solteiro, os anos da faculdade, as festas do colégio, os jantares e reuniões familiares, as brincadeiras de criança, o balanço

(descreve uma parábola em direção ao barranco)

na ponta do velho carvalho.

Sempre que possível seu pai arrumava as pessoas para tirar uma foto seguindo algum padrão: altura, idade, parentesco, etc. enquanto sua mãe costumava escrever os nomes das pessoas no verso das fotos. Entre todas as fotos uma chama sua atenção: formando uma estupida pirâmide etária uma foto dele com os irmãos durante uma reunião de família. Eram cinco irmãos: Ele e Fred por serem os caçulas estavam nas pontas da pirâmide, Frank estava ao seu lado, Bety do lado do Fred e no centro o Will. Apesar dele e Fred serem gêmeos idênticos, uma pequena cicatriz abaixo do olho esquerdo de Fred tornava fácil à diferenciação. Essa cicatriz foi causada por um acidente de bicicleta poucas semanas antes da foto ser tirada. Vira a foto apenas para ver a bela e curvada caligrafia de sua mãe. “Da esquerda para direita. Meus amores: Frederick, Frank, William, Roberta e Anthony.”

Seu cérebro leva um segundo para perceber que algo está errado. Olha novamente a foto. Ao lado da irmã, que estava usando um vestido rosa e botas marrons, está aquela figura pequena usando camisa branca e shorts azuis. No rosto uma cicatriz imitando um sorriso que uma criança dá ao ser pega aprontando. Era Fred Cougar.

“Teria ela se engando? Eu, às vezes, fingia que era Fred e vice versa. Mas depois do acidente isso era impossível.” Respira profundamente. “É isso. A foto foi tirada de longe e o dia está meio escuro. Isso que eu acho que é uma cicatriz por ser só uma sombra. A cicatriz dele era pequena, logicamente não é possível vê-la em uma foto tão antiga.”

Mesmo a logica falando que se trata de algum engano seu desconforto aumenta cada vez mais conforme vê aquele pequeno garoto com uma cicatriz no rosto ser chamado por seu nome, Anthony, em cada vez mais fotos. Começa a falar sozinho, como que querendo convencer a sala que aquilo é um engano, e percebe que sua voz está pastosa. Estaria ele bêbado a ponto de imaginar uma cicatriz no seu rosto de 36 anos atrás?

“This isn’t me I’m not mechanical

I’m just a boy playing the Suicide King…”

Finalmente encontra aquilo que vai provar que tudo está bem. O álbum do período da sua internação no hospital psiquiátrico.

Era um prédio branco muito grande. O belo estilo barroco do prédio quase desviava a atenção das grossas barras de metal nas janelas e do cheiro de urina, sangue, fezes e carne queimada pelos corredores. Ao menos seu pai havia pagado o suficiente para que ele pudesse ficar na ala “humana” do hospital. Lá as grades eram mais finas e o cheiro podre era ofuscado pelo uso maciço de desinfetante.

Logo provaria que todas as outras fotos estavam erradas. Anthony Cougar nunca teve uma maldita cicatriz no rosto. Ali está. Já calmo pelo uso forçado de remédios os médicos tiraram uma foto para mostrarem os progressos no tratamento. O lençol branco puxado até o pescoço cobria as correntes em seus braços e pernas.

Está perdendo o controle de novo. Na foto, um garoto com olhar vago rodeado por enfermeiras. Ela está lá. Abaixo do seu olho esquerdo, com seus cantos repuxados, a cicatriz está sorrindo para ele. Está rindo dele.

Seus gritos são abafados pelas palavras saídas do sistema de som.

“Playing the Suicide King...”

Mesmo que Alice estivesse em casa ela não ouviria o pedido desesperado de seu marido por socorro. Ouviria apenas o silencio habitual da noite.

“Calma! Simplesmente eu estou bêbado e estou vendo coisas. Quando Alice chegar nós vamos transar. Vou fumar enrolado nas cobertas enquanto ela limpa o gozo das coxas. Amanhã quando estiver sóbrio vou ver que as fotos estão normais e eu não tenho nenhuma cicatriz no rosto.”

Está alimentando essa esperança quando o telefone toca.

― Sr. Cougar?

― Sim. Quem fala?

― Aqui é o delegado James. Sinto dizer, mas sua mulher sofreu um acidente de carro e morreu no local.

Ele derruba o telefone. A sua mentira já está desmoronando.

Passaram-se poucos minutos do meio dia quando ele estacionou seu Mercury na garagem de casa. Na caixa ao seu lado alguns retratos e papeis que ele julgou importantes. Limparia o resto da sala na segunda feira. A garagem, sempre tão limpa e organizada como um hospital estava com uma camada de poeira sobre tudo, já que ele não havia ao menos entrado nela desde o incidente com a chave. No local onde aconteceu era possível ver gotas do seu sangue no chão de madeira. Inconscientemente toca os pontos abaixo do olho. Seu sangue

(fluindo pelo corte na cabeça... tingindo a água limpa do rio)

pequenos pontos vermelhos no chão cor de terra.

Olha para o outro extremo da grande garagem e vê a vaga vazia do Beetle amarelo de Alice. Nunca andaria naquela coisa. Quando saiam juntos usavam seu Mercury ou a velha RS2 Avant azul guardada junto do Beetle. Aquele monte de aço amarelo não lembrava em nada seu velho Bug preto fosco, companheiro de tantas saideiras durante a faculdade. Talvez, quando estivesse passando pela crise da meia idade e estivesse procurando incansavelmente a juventude perdida, comprasse um Beetle igual da esposa. Mas agora não.

Atravessa de maneira automática o gramado e toda a casa e vai direto ao bar do lado da cozinha. Acende um cigarro enquanto prepara um coquetel com saquê que vira na internet. Começaria a aproveitar essas férias forçadas de porre.

Estar sozinho na grande cozinha o deixa um pouco deprimido. O silencio pesado do local o faz pensar como se ninguém nunca mais fosse entrar ou sair por aquelas portas. É tirado de seu devaneio pela campainha ritmada do telefone. É Alice.

― Oi, Tony. O que você está fazendo em casa a essa hora?

― Você tinha razão. Fui chutado. E agora estou tomando um porre enquanto tento aproveitar minha nova vida de rico esnobe.

― Bom pra você. Enquanto isso, a plebeia aqui tem que trabalhar para garantir o pão de amanhã.

― Sabe – imita a voz de um cafetão de um seriado de TV – em troca de alguns favores sexuais eu poderia melhorar a sua situação financeira.

― Vou pensar – ouve risadas do outro lado da linha – Só liguei para avisar que vou ficar até mais tarde na galeria. Talvez chegue depois das onze.

Depois de mais alguns minutos de conversa trivial se despedem e a casa mergulha novamente no mais completo silêncio, só quebrado pelo barulho das bebidas sendo misturadas e pela tosse seca cada vez mais frequente. De certa forma está calmo, mas pode sentir a loucura crescente se esgueirando e preenchendo cada canto da casa enquanto o saquê desce queimando sua garganta e deixa um gosto amargo em sua boca.

―Tem certeza que está tudo bem você ir para a firma assim? Não quer esperar mais alguns dias?

Tinha a sua frente um prato raso com bacon e ovos. Sentada a sua frente, sua mulher continuava a falar como se preocupava com ele e continuava a perguntar se estava bem. Ele simplesmente não ouvia o que sua mulher dizia. Em sua boca um cigarro pela metade. Antes disso nunca havia fumado durante as refeições. Antes disso só fumava quando não tinha nada para fazer e depois de transar. Sempre achou cômica a imagem dele fumando enquanto sua mulher limpava o esperma das coxas. Como nos filmes antigos.

Mas agora fumava porque precisava.

Se houvesse algum espelho na sala de jantar poderia ver o mesmo que os olhos azuis de Alice fitavam. Um rosto vazio com a barba por fazer, um sorriso já amarelado pelo uso constante dos cigarros e um estupido corte abaixo do olho direito. Estava debaixo do carro quando a chave que estava usando para soltar um parafuso espanado escapou e acabou rasgando a carne de seu rosto. Não foi um corte grande, mas achou melhor ir ao hospital por precaução. Levou dois pontos. Provavelmente não ficaria cicatriz.

(teve sorte de alguma pedra não acertar seu olho, poderia ficar cego. Ao invés disso, ficou com um pequeno sorriso abaixo do olho esquerdo)

De tudo isso restou apenas uma foto tirada por Alice na saída do hospital. Ele se sentiu um idiota ao tirar a foto e se sente um idiota toda vez que a vê na mesa de centro da sala de estar. Parecia a foto de um soldado que havia curado suas feridas e pronto para continuar matando pelo seu país.

Nada disso importava. Aparentemente o maníaco o estava seguindo. Quando chegou do hospital recebeu outro e-mail: “Agora que somos iguais novamente você teria coragem de fazer aquilo de novo?” não importava que configuração ele usasse, esses estranhos e-mails nunca eram mandados para a lixeira.

“Esse maníaco não é só um bostinha. Ele sabe o que tá fazendo. Ele deve ter feito uma longa pesquisa para saber que meu irmão tinha uma cicatriz abaixo do olho esquerdo. Como ele podia saber disso?”

―... você mesmo fala que o conselho está procurando um motivo para te desligar da empresa.

Isso é verdade. Nos dias de hoje seria impossível manter uma firma dessas proporções sem capital externo. Logico que ele era o maior acionista, mas a politica da firma permitia que ele fosse desligado das funções na diretoria. Isso não afetaria suas ações, mas sentia que devia manter o único Cougar ativo na empresa. Devia isso a seu pai.

― Eu sei. Por isso mesmo eu tenho que ir. Isso é uma coisa estupida que eu chamo de orgulho masculino.

― Agora você parece o homem com quem me casei. Ah, já ia me esquecendo – entrega uma notificação em suas mãos – parece que a fazenda dos seus pais foi liberada do período de quarentena.

Ficou realmente surpreso. Seu pai, homem pratico e racional, havia recusado vender a fazenda para o governo após o acidente na usina nuclear da região. Isso foi há 29 anos. Dificilmente conseguiria vender a fazenda por um bom preço. Pelo jeito aquelas terras radioativas continuariam na família Cougar.

Sua mulher tinha razão. Durante uma reunião que durou 5 minutos havia sido destituído da sua função no conselho administrativo. Sabia que quando eles tivessem problemas voltariam como o rabo entre as pernas pedindo ajuda. Iria deixar as coisas como estavam no momento. Enquanto esvaziava sua mesa jogou fora a bituca do quinto ou sexto cigarro do dia.

“Se tiver um pouco de sorte talvez eu morra de câncer antes de ficar louco. Vou ser enterrado com um terno branco com os braços

(e pernas dobradas em ângulos estranhos)

cruzados e os dedos do meio levantados.”

Começa a rir, mas a tosse áspera logo vem lembrar que o câncer está realmente perto. Mas a loucura está ao seu lado.

Alice dormia no quarto. Sentado na poltrona surrada de couro tem a sua frente um copo de uísque e gelo e um cinzeiro já cheio. Do mesmo modo que Alice tinha um estúdio no jardim ele havia transformado o porão da casa em uma sala de estar à prova de som. Assim ele não incomodaria ninguém nem seria incomodado. Mas agora aquela sala, antes tomada por musicas de rock e as risadas bêbadas de jogadores de pôquer, estava tomada pelo silêncio. A grande televisão presa à parede era como uma mancha negra no meio do branco do quarto. Percebe que seus cigarros acabaram. Sua mente finalmente está lucida e ele consegue pensar nos fatídicos acontecimentos dessa terça-feira.

“Só pode ser algum tipo de maníaco. Já encontrei esses tipos antes. Não sei como ele conseguiu meus e-mails. Não consegui rastrear o IP do cretino. Não faço a menor ideia de como esse merda consegui minhas senhas.”

Lembra-se da vez que teve que desembolsar alguns milhares de dólares para fazer alguns hackers “esquecerem” algumas fotos antigas da sua mulher.

“Não é tão absurdo pensar que ele está blefando. Aquele dia foi noticiado por todos os jornais. Li uma dessas manchetes quando estava no hospital: ‘Filho de importante empresário da região morre durante brincadeira no fim da tarde’. Não tenho certeza, mas deve ter saído alguma notícia que seu irmão gêmeo passou por tratamento psiquiátrico. Qualquer imbecil poderia juntar os fatos e pronto: ameaça instantânea. Ele só estava blefando. Ninguém sabe o que realmente aconteceu.”

Era uma brincadeira. HAHA. Todo mundo iria rir. Seu irmão havia batido nele por andar mentindo. Que tipo de homem ele seria se não se vingasse? HAHA. Todo mundo vai rir. Ele substitui a corda do balanço. HAHAHA. Seu irmão iria cair de bunda no chão ao tentar subir no velho pneu faixa branca. HAHA. Mas a corda presa no velho carvalho não arrebenta e ele começa a se balançar. Para frente, para trás. Ele tenta segurar o riso. A corda arrebenta e seu irmão faz uma parábola em direção ao barranco da beira do rio. Era uma brincadeira. O grito e o som de osso quebrando. HAHA. Todo mundo riu. O sangue fluindo pelo corte na cabeça. HAHA...

O gosto salgado em sua boca o faz perceber que está chorando. O silêncio foi quebrado. Sua risada ecoa nas paredes e chega aos seus ouvidos como um som grave e doentio. A casa continua em silêncio. A loucura está presa entre as pareces brancas. A loucura quer sair.

Era seu quinto cigarro do dia. Nunca teve vontade desenfreada em fumar. Uma cartela de cigarro chegava há durar um mês em seu bolso sem nem ao menos ser aberta. Mas agora, sentado no banco do motorista de seu Mercury sentia um prazer imensurável ao tragar aquela fumaça toxica. Como se a fumaça invadindo seus pulmões expulsasse o

(sangue e água dos pulmões)

que havia visto.

Joga a bituca do cigarro pela janela. Agora está mais calmo. Começa a manobrar o carro para sair do estacionamento já deserto. Rodridez, o porteiro, já foi embora por isso tem que abrir o portão. Chegaria em casa em 15 minutos. 10 se não se preocupasse com semáforos e limites de velocidade.

Acende outro cigarro enquanto os largos pneus traseiros deixam faixas negras no chão. As ruas daquele bairro comercial eram desertas há essa hora, poderia testar do que o carro era capaz. Dobra a esquerda no fim da rua e toma um atalho. Chegaria em casa mais cedo. Alice estaria lá para reconforta-lo. A fumaça do cigarro bate em seus olhos. “Droga, sabia que não devia fumar dirigindo.” No segundo em que seus olhos estão fechados ele sente a batida. O inconfundível som de metais se chocando e de algo caindo no cascalho da viela. Para imediatamente e vê uma bicicleta azul caída no chão com seu quadro deformado e os aros apontando para o céu. Sai do carro ofegante e vai até os destroços. Não vê sangue nem um corpo. “Deve ser uma bicicleta abandonada.”

Por um momento perdera o controle. Não podia deixar que um simples e-mail o atormentasse. De volta ao carro percebe que não adianta fugir das lembranças que aquela maldita mensagem trazia. Devia confronta-las.

Da a partida e sai jogando cascalhos nos destroços da bicicleta. Ele não percebe que ela é exatamente igual a aquela na qual costumava andar quando pequeno. Se tivesse a observado mais atentamente poderia ver as iniciais AC e FC gravadas no guidão.

Dando continuidade a minha epopeia de ser um escritor de fim de semana e depois de derrotar minha protelação consegui terminar Spam Emocional. Ficou bem maior do que eu esperava por isso não vou posta-lá de uma vez aqui. Não tenho certeza se fiquei realmente satisfeito com o final dela, mas tá valendo.

Ladies and gentlemen, com vocês a estreia de Spam Emocional.

Spam emocional

“Só pode ser algum tipo de spam.”

Enquanto o diretor do setor de finanças desmembrava todos os gastos e ganhos dos últimos meses o sr. Cougar não conseguia se concentrar. Sabia todas aquelas informações de cor, mas seu velho pai sempre lhe dizia que a atenção era a parte mais importante para gerenciar qualquer tipo de negocio. Por isso sempre deixava seus problemas pessoais em casa, mas nessa terça feira chuvosa algo havia chamado sua atenção.

Anthony Cougar, 43 anos. Típico homem de negócios. Graças aos seus esforços a firma fundada por seu pai se tornou uma importante firma de consultoria de engenharia. Casado há doze anos não teve filhos devido a um problema de saúde de sua mulher. O fato de não terem filhos permitiam aos dois ter um estilo de vida mais livre, sem as preocupações que uma criança pequena daria.

Como de costume, ainda na mesa do café, ele gastava meia hora para verificar seus e-mails. E-mails de trabalho, os pessoais ele verificava no fim do expediente ou quando chegava em casa. Normalmente havia ao menos uma dezena de e-mails de fornecedores e funcionários, mas nessa terça feira havia apenas um. Estranhamente o remetente era seu e-mail pessoal. Ele não se lembrava de ter mandado um e-mail para si mesmo. Devia ser uma brincadeira de algum familiar, mas nem sua mulher sabia seu e-mail do trabalho. Devia ser algum spam. Mas se fosse, porque não foi encaminhado para a lixeira junto com anúncios de casas na praia e remédios que aumentariam eu pênis? Percebeu que estava atrasado, mas antes de deletar o estranho e-mail ele repara no titulo dele “Tá na hora de brincar, pequena cópia perfeita.” Por um breve momento ele se lembra. O balanço. O rio. Uma ponta da corda presa no galho do carvalho. O corpo no rio. Seus braços e pernas dobrados em ângulos estranhos. O sangue tingindo a agua limpa do rio. Aquele sangue, os braços e pernas são iguais aos seus. É o seu sangue que tinge o rio. São os seus olhos que fitam o verdadeiro culpado.

­―Você está bem, Tony?

O chamado de sua mulher o trás de volta a realidade. A visão daquele longo cabelo loiro o faz esquecer o que estava pensando. O e-mail foi deletado.

Passa a mão sobre a testa e percebe que está suando apesar de estar fazendo frio. Resolve tomar outro banho antes de ir para o escritório. Queria que aquelas memorias fossem deletadas. Mas elas sempre estariam ali, não importando quantos banhos tomasse ou quantos terapeutas visitasse. Haveria sempre o sangue, os fiapos da corda balançando ao vento. Haveria sempre o outro eu.

―Algo a acrescentar, sr. Cougar?

A reunião acabou. Agora todos o fitam esperando mais algumas palavras para darem a reunião por encerrada.

―Se vocês realmente ouviram o que o sr. Johnson disse não há mais nada a dizer. Se levantou, observou a surpresa no rosto de todos e foi embora.

Quando deu por si já estava em seu escritório. No canto norte do ultimo andar da sede da empresa, seu escritório, assim como o prédio de três andares, era simples, mas muito aconchegante. Ladeado por grandes janelas, o prédio era bem iluminado ao contrario

(da cova onde meu outro eu está)

do barracão onde seu pai havia começado a firma há quase 40 anos. Terminada a reunião não teria mais nada de importante para fazer pelo resto do dia, a não ser uma reunião com um fornecedor perto do fim do expediente. Arrastou sua cadeira para perto da janela, ascendeu um cigarro e ficou admirando a paisagem, hoje tomada por prédios, mas, quando inaugurou a nova sede há 10 anos aquele bairro era totalmente vazio. Olha para baixo e vê seu Mercury Cougar preto estacionado. Poderia pagar qualquer um para ter o carro pronto imediatamente, mas o estava montando sozinho em suas folgas. Lembrava-se do pai se vangloriando por ter ganhado um processo na justiça e a Ford seria obrigada a pagar para usar o sobrenome da família. É verdade que foi pouco dinheiro, mas ele sempre ria quando o pai comentava na mesa de jantar ou durante uma reunião de família: “Ei, já falei pra vocês da vez que ganhei um processo em cima do grande Henry Ford II?”

A reunião com o fornecedor foi rápida e, como havia alguns minutos livres, resolveu conferir seus e-mails pessoais no trabalho. Aquilo era só um spam. Quando vê o e-mail no topo da lista ele não acredita no que vê. Se ouvisse falar de algum caso parecido, iria achar que era mentira. Mas as letras gravadas no monitor não deixavam duvidas. O remetente era seu e-mail do trabalho. O titulo estava gravado em seus olhos “É a segunda vez que você me exclui da sua vida. Não faça mais isso, tá?”

O sangue. O pneu descendo a correnteza. O grito e o som de osso quebrando.

O prédio já está vazio. Ninguém pode ouvir seus gritos.

“Todo download pode sofrer falhas durante o seu processo, exceto, é claro, quando atingir 90% de sua totalidade.”