Porque me tornei escritor?

Numa roda de amigos essa pergunta me foi dada
E por cada um deles foi justificada

Primeiro a falar, com muita convicção
Mesmo com a voz pastosa e um copo na mão
Nickolas, cineasta semi-frustrado
Morador de Paulínia
Num quarto e sala alugado
”Não foi para pegar mulher, com toda a certeza
Pois nem o maior épico é capaz de lhe dar beleza
Nenhuma mulher deve ter dado a palavra
Caio, suas licenças poéticas me deixam em ponto de bala!”

Sua imitação de mulher menstruada
Arranca boas risadas
Quando todos se acalmam
Com um cubano entre os dentes
Bruna tenta controlar uma mesa de dementes
Tem casa, carro, filha e uma esposa ardente
Nada mal pra uma ilustradora independente
”Ser popular também não deve ter sido o objetivo
Ameaças de morte e processos enchem os seus arquivos
Desafetos na família crescem de maneira exponencial
Embora não ache isso mal
Apenas encurta sua lista de natal”

A maioria está bêbada demais até mesmo pra rir
Eu e meu terno surrado teremos a chance de nos redimir
Escritor por profissão
Hobbie: ficar enfurnado numa repartição
Olho pros lados para checar a plateia
Prestes a dizer algo que ninguém espera
”Prestem atenção
É difícil de crer
A minha verdadeira missão
É mostrar que o ‘porque’ acima deve ser”

A maior festa que se tem noticias. Desde os tempos antigos. Se você acha que se diverte indo nos points badalados dessa cidade fétida, saiba que ainda não viu nada. Apenas gastou dinheiro como um imbecil. Pergunte para quem realmente sabe das coisas “Onde posso me divertir?”. Nos galpões do antigo bairro industrial será a resposta. Ou, até mesmo, nas ruinas do velho castelo. Mas, se você não for o tipo certo, ele simplesmente vai levantar e você nunca mais verá aquele mendigo. Sou o organizador dessa festa, sou eu quem decide quem entra e publicidade não é necessária.

Não espere nada espalhafatoso nem requintado. Apenas um velho galpão industrial com as paredes sujas de fuligem. Se pesquisar um pouco vai descobrir que, durante a Revolução Industrial, o antigo dono reprimiu uma greve trabalhista. Como? Trancou as portas e, sentado confortavelmente em sua poltrona, atirou em todos os funcionários. A firma funcionou por mais 30 anos, até o dono morrer sem deixar herdeiros. Sentado nessa mesma poltrona, me sinto em êxtase, numa viagem que nem a mais pura metanfetamina é capaz de gerar. O cheiro de pólvora continua fresco mesmo depois de todos esses anos. Talvez até tenha conhecido o antigo dono, mas a idade e os exageros da vida moderna já me tiraram as velhas memorias.

Nada de carros imponentes e confortáveis. Alguns chegam a pé, imaginando que no fim da noite estarão tão chapados que ficaram incapazes de operar os três pedais, outros em pequenos hatchs mais velhos que seus motoristas, que se acham muito habilidosos e acostumados com qualquer tido de droga moderna. Ambos estão errados. Ninguém sai daqui, a menos que eu queira. Mas enquanto o rock for pesado e a bebida de graça, ninguém se preocupa em ir embora.

A temática de hoje é festa à fantasia, mas a grande maioria está usando roupas casuais e banais, o que me faz sentir falta da época dos longos vestidos e dos trajes de fino corte da aristocracia francesa. Vejo um rapaz com um moletom surrado e creme de barbear na boca simulando um lobisomem com raiva, um gordo espinhento apertado num velho terno puído numa caracterização chula do Drácula, uma moça com olhar injetado e uma fantasia minúscula de diabinha. Numa busca rápida encontro mais seis ou sete jovens em fantasias tão execráveis quanto às primeiras. Esses jovens. Eles não se importam com isso. Ficam felizes com musica boa e metanfetamina tão pura que deixaria o sr. White com inveja. E eu dou isso para eles. Isso e muito mais, mas também preciso de alguma coisa em troca.

Está chegando a hora. Poderia ter feito isso logo que entraram, mas sou o organizador dessa festa e as coisas acontecem do jeito que eu quero. Já estou velho, posso me dar esse tipo de diversão. Rebel Monster, da banda dinamarquesa Volbeat, sai dos alto-falantes e faz as paredes vibrarem. Faltam trinta segundos pra meia noite quando as maquinas de fumaça começam a funcionar. Poucos reparam e estão todos alucinados de qualquer forma, acham que é apenas mais uma viagem, que o moletom está se transformando em pelos e a espuma borbulhante começa a escorrer de sua boca, que as pernas da diabinha se fundem numa cauda com escamas e asas ossudas surgem das costas de vários convidados. O pânico demora alguns instantes para se instalar, com os gritos e lamentos de jovens drogados que não sabem ao certo que está acontecendo. Tudo está acabado antes mesmo da musica acabar. O cheio de sangue e carne crua é forte e preenche o velho galpão, mas sentado nessa velha poltrona o cheiro de pólvora ainda é mais inebriante.

E essa continua sendo a melhor festa de todos os tempos. Pergunte para quem realmente sabe das coisas. Eu vou confirmar. E se você tiver sorte, não vai ser convidado.

Essa é a minha verdade. Essa é a minha história. A escrevi em terceira pessoa por achar mais fácil. Assim parece que não fiz algo tão abominável. Não me lembro de muita coisa depois do enterro do meu pai. O caso continua sem solução. Minha mãe acha que me internei aqui por livre e espontânea vontade. Acha que sofri um colapso nervoso após a morte dele. De certa forma foi isso que aconteceu. Essas paredes acolchoadas são para salva-lá. Se continuasse lá fora sei que acabaria fazendo o pior pra ela também. Meu remorso não vale de nada agora. Foi-se o tempo para desculpas. Nem sei se estou sendo totalmente sincero agora. Talvez apenas vindo para esse hospício com a esperança de ser salvo de mim mesmo. Sinto que devo ao meu pai a solução desse caso. E ambos sabemos como tudo deve acabar. Eu devia saber desde o inicio, mas acho que me neguei a enxergar a verdade. Ninguém pode ficar no topo para sempre. Enfim, acho que finalmente chegou a hora. Você tem sido bem detalhista então espero que minha morte ocorra do modo que estou escrevendo nessas paginas, seria decepcionante saber que seu ultimo trabalho baseado em uma história minha não foi executado com perfeição. Não sei como, mas sinto que você pode ler estas palavras que escrevo agora de maneira furiosa nesse papel manchado. Sempre falei que rostos não eram importantes, mas gostaria de conhecer a aparência daquele que me deu tudo aquilo que eu queria. Não sei como, mas posso sentir sua presença aqui, faça um trabalho bem feito e violento, é apenas o que eu te peço. Faça meu sangue jorrar. Sempre achei que tivesse medo da morte, mas agora que sinto as cortinas fechando sinto uma paz de espirito imensurável. Às nove horas de amanhã quando vierem me trazer o café da manhã faça que sejam vermelho sobre tudo. Prove para mim que, no final, não sou muito diferente daqueles que odiei por tanto tempo. Não tenho mais nada para escrever. É hora de cada um seguir seu caminho. Hora do medico enfrentar o monstro. Mas não tenho certeza sobre qual deles sou eu.

Manuscrito encontrado no quarto do paciente n°073 no dia 13 de agosto. Seu assassinato continua sem solução. O tribunal tomou sua suposta confissão como delírio psicótico.

Enquanto o clima na escola ia ficando cada vez mais calmo, o clima dentro de casa, que nunca foi exatamente agradável, ficava mais tenso. Seu pai devia ter se aposentado há dois meses, mas como ainda não conseguiu resolver o caso dos assassinatos resolveu continuar na ativa, por isso sempre chega em casa estressado e sua mãe, contrária a ideia do marido adiar sua aposentadoria, passa cada vez mais tempo no seu escritório de advocacia para evitar conflitos. Sua ira é plausível, esse é sem duvida o caso mais difícil que ele teve que enfrentar durante toda sua carreira e ele escolheu continuar à frente das investigações do que se submeter à vergonha de ter um caso não resolvido na sua ficha até então impecável. “Não há nenhuma ligação consistente entre as vitimas, alguns eram conhecidos entre si, mas apenas isso, os métodos usados também são diferentes, o que elimina a chance de ser um serial killer clássico. Todos os possíveis suspeitos possuem álibis já confirmados. Não foi encontrada nenhuma amostra de DNA do agressor então não tenho motivos pra acreditar que se trate de um único assassino, mas minha intuição diz que essa é a única explicação possível.”

Lendo por cima do ombro do pai enquanto ele organiza o material da investigação ele sente um misto de orgulho e pena. Orgulho por acreditar que chegou a utopia do crime perfeito. Após cometer os assassinatos basta apagar qualquer vestígio dos textos ou modificar a data em que eles foram feitos para depois que os corpos foram encontrados. Além dos textos pro assassino ele continua escrevendo seus textos habituais. Seu pai é seu álibi já que ele conhece o estranho hobbie do filho melhor do que ninguém. Mas não deixa de sentir pena do pai, esse caso está afetando seriamente sua sanidade. O garoto não pode ajuda-lo nesse caso. Apesar da sua frieza habitual com todos, ver seu pai se perder em meio a perguntas e duvidas criadas pelo próprio filho está o incomodando de uma forma que não poderia imaginar. Só pode esperar que o pai desista. Torce para que o pai perceba que aquele é um beco sem saída.

Mas ele sabe que isso não vai acontecer.

Até agora tinha conseguido evitar uma conversa mais seria com o pai sobre o caso. Mas agora seu pai faz perguntas e exige respostas. As mentiras ecoam pela sala vazia. O ódio entre os dois aumenta cada vez mais. A saliva quente do pai bate em seu rosto enquanto grita suas lamentações para o causador de tudo. Sente a pena se transformando em ódio. Não ouve tudo que o pai diz a seu respeito, mas reconhece algumas palavras: retardado, doente mental, incompetente. No final seu pai é igual a todos. Sente raiva dele por não saber quando parar.

Está sozinho no quarto. Ouve seu pai gritando da sala. Tem medo do que está prestes a fazer. A luz vinda do monitor torna seu rosto encovado. Os únicos sons no quarto são de seus dedos batendo nas teclas. Uma parte dele sente que deve parar. Mas a outra sabe que agora é tarde demais. Seu pai sai para o turno noturno na delegacia. O barulho do teclado cessa. Agora é apenas uma questão de tempo. O silencio o consome. Ele gostaria de pensar que dessa vez pode dar errado. Que seu pai está a salvo. Que tudo até agora foi apenas um sonho.

Ele matou o próprio pai. Essa é a verdade.

É uma manhã típica. Café com leite e torradas enquanto assiste o noticiário. Material de pesquisa para histórias. Quando está saindo para a escola uma notícia chama sua atenção. O corpo estirado em um beco qualquer. A saia rasgada. Os cabelos ruivos da vitimas desgrenhados. Os cortes profundos e irregulares, típicos de uma faca sem corte. O repórter não fala, mas ele tem certeza que não houve violência sexual. Sabe que se procurarem pelas proximidades encontrarão a faca. Uma faca grande, sem corte e com sinais de ferrugem perto do cabo. Pode ser apenas uma coincidência, mas ele sente que não. O delegado diz que ela foi morta, aproximadamente, às duas da manhã.

Eles estão errados. A pesquisa que ele faz ao banco de dados da policia durante o trajeto da escola só serve pra confirmar o que ele esperava. Há apenas um erro no relatório: a hora da morte.

Ele previu o futuro. Ele a matou enquanto escrevia no seu notebook. São suas mãos que deviam estar sujas de sangue. Mas ele não fez nada. O mundo está cheio de maníacos dispostos a matar sem motivo, mas mesmo assim ele se sente culpado. Alguns teriam se desesperado com a culpa.

Ele vê uma possibilidade. Como não aproveitar a chance de se livrar de todos que o incomodam apenas apertando algumas teclas? Seria louco se não o fizesse. Todos sempre falam de livre-arbítrio e de moral, mas todos esses valores caem por terra quando se tem a solução para todos seus problemas ao alcance da mão.

Afinal, antes de sermos humanos somos animais. Animais vis e sádicos que se alimentam da dor de seus semelhantes. Até o mais puro dos seres pode se corromper com o poder. Os mais repugnantes dos seres só podem sonhar com o dia que serão os caçadores ao invés da caça. Todos queremos estar no topo e não nos importamos com quem deixamos pras trás.

Para ele os dias seguiram normais, mesmo que o fundo da sala de aula fosse ficando cada vez mais vazio. Nada mais de emboscadas depois da aula, materiais roubados, roupas sujas de sangue e suas paradas pra vomitar o que o estomago ferido não consegue segurar. Bytes de informação eram transformados em corpos estirados e despedaçados de todas as formas possíveis. Ninguém poderia culpa-lo por falta de imaginação. Era apenas uma feliz coincidência ter encontrado alguém capaz de tornar suas palavras reais. Como o invasor mesmo disse, ele previa o futuro.

Ele estava no controle. Ele estava no topo, e quando se está no topo, ou você se mantem lá ou deve estar preparado pra encarar uma longa descida.

Ele se apoia em um poste para vomitar. Podia ter sido pior, se tivesse vomitado no ônibus ou na frente do colégio todos teriam visto. Vomitando apoiado a um poste em frente a uma viela ele é tratado apenas como mais um bêbado, mesmo que esteja usando o uniforme de uma das escolas mais caras da cidade. Um pouco de sangue se mistura aos restos do que ele comeu no café da manhã. “Hoje foi difícil.” Durante a infância fez aulas de kempo, então seria fácil para ele lidar com um cretino. Mas todo mundo é corajoso com dois capangas segurando a vitima pelas costas enquanto bate na barriga de um cara já desmaiado com um soco inglês.

“Merda, se eu não tivesse fingido desmaiar ia apanhar até agora. Aqueles montes de merda. Eu acabaria com eles em situações normais.”

Limpando o vomito da boca e mancando um pouco ele finalmente chega em casa. Esse foi apenas mais um dia normal de aula. Apesar das perguntas da sua mãe ele vai direto para seu quarto em silencio. Seus pais trabalham muito, ele não quer preocupa-los sem motivo. Em todas as escolas foi assim e ele sempre continuou em pé, não seria agora que ele perderia para um bando de imbecis.

Foi diagnosticado como portador da Síndrome de Asperger. Memoria fotográfica e grande facilidade em entender as fórmulas que os outros tanto penavam para entender eram benefícios, o fato de não conseguir se envolver facilmente com pessoas já não o incomoda mais. Portadores dessa síndrome normalmente apresentam interesse em algo especifico. Ele tem interesse em investigações de assassinatos. Ele mesmo não sabe por que, sabe apenas que essas investigações são uma das poucas coisas que prendem sua atenção.

Alguns anos atrás, ele foi um hacker promissor, mas depois de alguns vírus mandados para lugares do mundo todo ele perdeu o interesse. A mesma coisa aconteceu com o kempo, tênis de mesa, mecânica de carros e corridas de kart. Tudo não passou de um mero passatempo até ele achar algo que realmente o interessasse. No seu antigo endereço houve um assassinato brutal, obra de um serial killer até hoje não encontrado. O garoto que não havia mostrado interesse em nada até então ficou vidrado na movimentação da equipe da policia cientifica e até hoje ele escreve histórias com as mais diversas soluções para aquele crime.

No seu quarto, entre as revistas e livros dos seus antigos hobbies, há vários livros sobre psicopatas, crimes famosos, histórias de terror e creepypastas de diversos autores e de sua autoria. Se a sua síndrome já torna o convívio com as pessoas difícil, esse hobby apenas deixa as coisas piores, por isso ele é desprezado em qualquer lugar onde as pessoas conhecem suas preferencias. É conhecido como psicopata de tinta até mesmo entre os professores. Não se importa com isso. Pelo menos não mais.

Joga a mochila no canto e se põe a trabalhar no seu novo projeto: resolveu que quer entrar na deep web de qualquer forma. Dizem que é necessário o convite de alguém de dentro, mas ele está fazendo do jeito mais difícil. “Estou tentando entrar pela porta dos fundos em um lugar que não tem porta na frente” esse pensamento passa rapidamente pela sua cabeça enquanto usa suas habilidades de hacker e reconhece que os anos de inatividade o deixaram enferrujado. Já faz um mês que está nessa empreitada e sente que está realmente perto de conseguir.

Alguém toma o controle de seu computador. Ele não consegue rastear o IP do invasor. Códigos aparecem velozmente na tela e simplesmente param. Após dois segundos sem nenhuma ação, aparece a tela azul e o computador é reiniciado. Ele retomou o controle. O invasor não deixou rastros e não apagou nada. Tudo continua igual. As musicas, os textos, até mesmo seu programa continua do mesmo jeito de antes da invasão. Menos por um e-mail que ele recebeu enquanto o computador reiniciava. Sem titulo, apenas duas frases.

Você é muito bom descrevendo o passado. Já pensou em prever o futuro?

Tenta mandar um e-mail respondendo aquele estranho elogio, mas seu provedor diz que o endereço de e-mail do remetente não existe. Já que nada foi roubado ou apagado resolve deixar pra lá.

Seu pai, delegado de policia, sabendo de suas habilidades, permite que ele acesse informações confidenciais de investigações. Alguns de seus palpites já ajudaram a solucionar crimes menores, mas ele não se interessa pela solução do crime, apenas pela investigação. Vê um tópico sobre uso de armas brancas e pensa sobre o e-mail. Prever o futuro? Movido pelo tédio ou pela surpresa de, aparentemente, ter um fã escreve uma história inédita.

As palavras fluem com tremenda facilidade. O beco escuro. O carrasco encurrala sua vitima. O cheiro do pânico. A faca sem fio de corte e com sinais de ferrugem perto do cabo. A mancha de esperma na calça do agressor. A faca dilacerando a carne. Uma. Duas. Dez vezes. A crosta de sangue começando a coagular.

Mais cinco minutos e termina seu texto. Fica satisfeito com o resultado. Desliga o computador e se prepara para dormir. Pode tentar chegar na deep web amanhã. Isso se não perder o interesse enquanto dorme. Ele não sabe, mas já obteve êxito na sua missão.

Dedico essa história a todos os cretinos que tive o desprazer de conhecer.

Situação: minha mae diz que vai fazer carne de porco pro almoço. Para uma pessoa normal isso apenas poderia significar mais gases. Para um judeu, uma ofensa. Mas como não sou uma pessoa normal nem judeu, escrevi isso. Pode ser que tenha uma continuação. Ou não.

Não sabia ao certo que lugar era aquele. Agora tudo não passa de uma breve lembrança. Talvez infantil ou até da minha vida adulta. Não me pergunte coisas que não sei responder. O que realmente importa é que isso aconteceu. Estava escuro, mas consegui ver 3 ou 4 pessoas agachadas formando um circulo ao redor de alguma coisa. Conforme me aproximava conseguia distinguir mais detalhes do quarto e de seus estranhos ocupantes. Havia um cheiro pobre no ar, mas ao contrario do que eu esperava, o aposento tinha uma limpeza digna de hospital. O branco das paredes ofuscava um pouco a minha vista. Estava ficando enjoado com o cheiro de desinfetantes e carne pobre, mas minha curiosidade apagou qualquer extinto de precaução que pudesse ter. Continuei avançando e finalmente vi o que aquelas pessoas estavam fazendo. Eram três homens, um deles careca, suas roupas estavam sujas de lama e sangue. No momento apenas fiquei espantando, mas agora me pergunto como aqueles homens podem ter entrado naquela sala sem tê-la sujado. Eles estavam arrancando a carne de uma carcaça de porco podre. Seus movimentos eram privados de qualquer tipo de consciência. Seus olhos estavam vidrados enquanto mastigavam a carne. O necrochorume escorria de suas bocas, sujando o chão e as roupas. Aquele liquido fétido se espalhava pelo chão e chegou até meus pés que, percebi apenas naquele instante, estavam descalços. A onda de nojo que seria esperada não vem. A curiosidade era maior. Para de olhar para o quarto e olho para mim mesmo. Usava apenas uma camisa branca que ia até meus joelhos. Meus pés estavam sujos e molhados pelo contato com o necrochorume. Continuei andando em volta deles. Eles tinham acabado com a carne e agora estavam roendo os ossos. Seus dentes eram tortos e quebrados e suas gengivas estavam em carne viva. Pedaços do tutano caiam no chão. De repente a curiosidade é substituída pelo medo. Um deles se vira para mim. Parece surpreso com a minha presença. Seus olhos continuam vidrados e seu sorriso mostra que sua boca está negra. Mesmo com o medo crescendo dentro de mim minha atenção se desviou para uma pequena figura em um dos cantos da sala. Parecia uma criança, vestida do mesmo modo que eu, e parecia se divertir vendo aquelas pessoas agindo como animais. Antes que pudesse pedir ajuda ele diz algo que me persegue até hoje: 'Você não pode pedir ajudar a si mesmo. Eu não quero sair daqui. E você também não.' Não me pergunte mais nada, depois disso não consigo mais me lembrar de muita coisa. Tudo que eu sei é que me mudei daquele apartamento na mesma semana. O açougue do andar de baixo havia sido fechado pela vigilância sanitária após eu denuncia-lo. E, cinco anos depois, aquele lugar ainda fedia como um animal morto que, depois de sua carne apodrecer, é deixado ao sol. Não aguentava mais aquilo.

Um pequeno texto que eu escrevi. Não me perguntem de onde tirei essa ideia.

Há algo no caos que me acalma. Algo que me excita. A sutil união entre o deslumbramento e o pânico me fascina. O caos é a base de tudo. A destruição pode gerar algo maravilhoso. E isso, cara, realmente me assusta. Os homens matariam a si mesmos se isso pudesse acalmar seus espíritos inquietos. Livra-lós do caos. O caos já teve outros nomes. Revolução. Guerra. Paz. Destruição. Mas, talvez o pior tenha sido o nome mais antigo dele. Deus. Os que evoluem são aqueles que se permitem lutar. Contra e para o caos. Somos criaturas acostumadas com isso. Não ficamos satisfeitos com a calmaria. Todos reagimos aos gritos de dor e agonia. Em alguns geram medos. Para outros, excitação. Todos temos em nós gritos e lamentos que nos acompanham para a eternidade. E mesmo assim continuamos em nossa busca diária por um pouco de caos para podermos começar algo novo. Para podermos dizer que realmente estamos vivos. Para provar que os gritos valeram para alguma coisa.

Cala-te a boca
E sente o silêncio que nos envolve
Negue teu corpo
E se torne parte do vazio
Abra teus olhos
Encontre a cólera em meus olhos opacos
Sinta o cheiro de ferro no ar
E apenas responda para esse corpo inerte
Porque meu sangue continua escorrendo por suas mãos?

Lei do mais forte

Dizem que a primeira lei do mundo foi a lei da sobrevivência, também conhecida como Lei do mais forte. O mundo sempre foi um lugar cruel e para os mais fracos só é permitido caírem em desespero diante da superioridade dos mais fortes.

Até hoje essa lei obsoleta segue imbatível.

Sou aquele que eu chamo de alvo. O ponto mais baixo da cadeia alimentar da nossa sociedade. Todos os dias eles acham necessário me lembrar que tenho uma vida horrível. Como se não soubesse disso. Para manter o equilíbrio do mundo, sempre haverá os fracos. Sempre me lembram que não há nada que possa fazer para mudar minha vida. Por eles, ela seria sempre repleta de rejeição, humilhação e escarnio.

Hoje decidi ser mais forte. A retaliação é esperada. Confesso que não esperava que meu sangue jorrasse desse jeito. Eles vão embora, com meu sangue impregnado em suas roupas, felizes por manterem a ordem natural.

Não sei bem o eu aconteceu comigo. Pode-se dizer que estou mais forte. Posso fazer coisas inimagináveis para outros humanos. Nem sei se ainda sou um humano. Vou fazê-los pagar pelo que fizeram comigo durante todos esses anos. Espero que não pensem que é vingança.

É a lei do mais forte.

Pequena creepypasta de um desenho que azucrinava minha infância. Quem adivinhar o desenho ganha um pirulito.

Ele pega os lapis de cor e gizes de cera sem muita firmeza. O atrito dos lápis com o papel é ouvido no grande corredor frio e branco. Figuras disformes começam a se formar e, para ele, representam uma vida normal para uma criança de quatro anos. Passeios com os pais, brincadeiras com os amigos, visitar os avos. Nada disso aconteceu com ele. Dentro daquele quarto ele só conhece a solidão, o desprezo e a pena estampados nos rostos das enfermeiras.

Não há nada nesse quarto que prove que uma criança ficou ali durante os últimos três anos. Aquela criança com olhar vago debaixo das cobertas não recebe visitas a muito tempo. Os brinquedos quebraram e foram jogados fora. As flores murcharam e foram jogadas fora. Só restaram alguns lápis e gizes de cera, cada vez mais curtos, e algumas folhas já amareladas.

“Será que fiz alguma coisa ruim e por isso papai e mamãe não vem me visitar mais?” pensa enquanto desenha um grande sol. “Os médicos sempre me colocam naquelas maquinas grandes e fazem um monte de coisas comigo. Deve ser algum castigo”

Ele é muito pequeno para entender as fofocas que as enfermeiras fazem pelos corredores. Convivendo com a morte e solidão todos os dias, o esporte preferido das enfermeiras, como boas sádicas que são, é discutir entre si as desgraças dos enfermos. Entre os corredores é famosa a história que os pais daquele garoto do quarto 205 são irmãos por parte de pai. Aparentemente, o cretino, após voltar da guerra, largou sua mulher e começou outra família. Eles só descobriram isso quando ela já estava gravida. Ela tinha medo que o aborto pudesse causar alguma complicação futura para ela. Isso causou um tipo raro de câncer na criança, fruto daquela relação incestuosa. Nos primeiros meses, seus pais iam todos os dias, mas depois que adotaram uma menina saudável, eles passaram a ir cada vez menos. Um dia eles não voltaram mais. Eles perderam o interesse naquele corpo tomado pela peste.

Chegou a hora dos remédios. Eles não servem para nada, apenas atrasam o inevitável e lhe garantem mais alguns dias de vida. Dias solitários. Enquanto ministra a dose diária dos remédios, a enfermeira tenta, como sempre, reconforta-lo:

― Não se preocupe, eles vão voltar.

Com a voz fraca e algo que deveria parecer um sorriso ele responde:

― Eu sei.

Quando está saindo, a enfermeira não consegue ouvir o resto da resposta.

“Eles vão voltar.” As palavras ecoam em sua cabeça, mas nada se ouve. “Mas não vai ser por mim.”

Pela primeira vez sente algo novo, além da solidão. Mesmo que ele não entenda isso direito, ele sente ódio. Ódio puro e simples. Mas esse novo sentimento não duraria muito. O caixão lacrado para evitar algum tipo de contaminação impede que seus pais o vejam pela ultima vez.

Eles recebem uma ligação urgente. Sua filha passou mal durante a aula de ballet e foi para o hospital.

Os quatro faróis rasgam a noite e o motor urra quebrando o silencio enquanto os largos pneus esmagam as folhas espalhadas pelo asfalto negro. Em sua boca o terceiro cigarro do dia e no porta-luvas seu revolver esperando para ser usado. “Quero chegar cedo para poder fazer uma grande recepção para ele.”

A pista de mão única é ladeada por arvores secas pela aproximação do inverno. “Quando tudo acabar vou passar uma temporada na Florida. Foda-se a empresa. De qualquer jeito continuo dono dela. Não preciso mais trabalhar. De agora em diante vou levar uma vida de rico esnobe.”

Os pensamentos sobre o futuro e a musica saindo dos alto falantes não conseguem afastar de sua cabeça uma ideia que o incomodava. É uma ideia idiota, mas ainda assim ele não consegue se livrar dela. Desde aquela terça não consegue parar de pensar nos seus problemas. “Acho que é isso que chamam de efeito borboleta. Tudo isso pode ter começado naquela briga ou no acidente do balanço. Eu ter sido internado em um manicômio. Ter me casado com uma puta. Não ter um bom relacionamento com meu único irmão vivo. Ter um maníaco me perseguindo. Tudo deve estar interligado com aquele maldito dia.”

Ensaia uma risada enquanto pega outro cigarro, mas a tosse o impede de rir e o faz pensar que essa ideia não é tão absurda. A pista se torna cada vez mais acidentada à medida que ele se aproxima da resposta da noite passada.

Dois cigarros depois finalmente chega ao seu destino. O velho portão está trancado e não há rastros de pneus. “Ele ainda não chegou. O convidado de honra deve chegar no melhor da festa.” Nos muros alguns folhetos colados sobre o acidente nuclear de 29 anos atrás. Tirando a ação natural do tempo, tudo parecia em ordem, como se ele apenas tivesse passado o fim de semana fora. Parecia que sua família o esperava na varanda da casa. Todos com um sorriso no rosto. Até mesmo Fred estaria sorrindo para ele. Não. Sua cicatriz estaria rindo dele.

Estaciona seu Mercury na frente da casa. Lembra-se da surra que Frank tomou por chamar o Ford Edsel do pai de “vagina dentada”. Coloca o revolver na cintura da calça enquanto sai do carro. “Apesar de tudo éramos uma boa família. Quando será que tudo começou a dar errado? Talvez seja mesmo o efeito borboleta.” Quem iria imaginar que aquela garota feliz das fotos iria encontrar o fim pelas mãos daquele que havia jurado ama-la? Ou que Will, rapaz atlético e fã de baseball, acabaria paraplégico por uma maldita guerra? Sua ultimas palavras foram “Tio Sam não cuida dos seus” enquanto sofria uma parada cardíaca na ala suja do hospital militar da cidade.

Acende outro cigarro enquanto olha para a antiga casa que se ergue imponente entre a grama morta e ervas daninhas. Acha melhor não entrar nela já que não sabe o estado dos alicerces. Olha para cima e vê as janelas amareladas pela poeira. Seu quarto ficava no ultimo andar. Fred estari8a esperando lá? Não. O lugar onde Fred o espera é mais escuro e frio. Mesmo com os braços e pernas quebrados ele o espera sorrindo. Sua cicatriz está rindo dele.

Andando sem rumo acaba encontrando o velho carvalho. Ele está seco, como todas as outras arvores, e as suas raízes aparentam estarem pobres. Aquelas imagens voltam aos seus olhos como um vídeo sem fim: para frente, para trás. O grito e o som de osso quebrando ecoando no silencio da tarde. Braços e pernas dobrados em ângulos estranhos. O sangue tingindo a agua do rio. O rosto virado e os olhos fitando o pequeno Tony na beira do barrando.

Deixa o cigarro cair. “Não posso perder o controle agora.” Respira tão profundamente quanto seus pulmões permitem. Ouve passos esmagando a grama morta. Ele se vira esperando encontrar o maníaco, mas...

Usando uma camisa branca e shorts azuis aquela criança o observa com curiosidade. Seu rosto está impassível, mas uma cicatriz abaixo do olho esquerdo sorri para ele.

―Não é possível – aponta o revolver para aquela figura de um metro e vinte – Você está morto. EU MATEI VOCÊ!

―Eu sei – os lábios da criança se contorcem em um sorriso – Só estou retribuindo o favor.

 

―Então é isso – ele chuta o corpo agonizando barranco abaixo e apanha o revolver, ainda quente pelo uso, do chão – Você morreu fácil demais.

O corpo de Anthony Cougar jaz no pequeno córrego como uma copia da morte de seu irmão. Seu sangue se mistura com a agua radioativa.

Enquanto caminha de volta para a van ele passa em frente da velha casa. “Belo carro. Teria sido ainda mais fácil se você tivesse entrado na casa. É incrível como você nunca suspeitou da notificação falsa que eu mandei.”

Já está dentro da van. Enquanto tira o traje de contenção, acende um cigarro e ri comemorando mais um trabalho bem feito. “É lindo ver a energia nuclear fazendo o trabalho sujo por mim. Hora de destruir a vida de mais alguém.”

A van parte deixando aquela área contaminada para trás com Frank Cougar relaxando no largo banco do motorista. O sangue ainda flui pelo corte e seus olhos fitam o local onde seu carrasco esteve. Seu nome foi Frederick Cougar. Ou seria Anthony Cougar?

Já passa da meia-noite. Só faltam dois dias para o inicio do resto de sua vida. Ele não pode contar com ninguém. Seus pais estão mortos e devido a discussões sobre a administração da firma não tem um relacionamento amigável com o ultimo dos seus irmãos. Aquela com a qual havia passado os últimos anos de sua vida estava sendo comida por vermes agora. “Até imagino o motivo do atraso na galeria. Se a policia examinasse sua virilha destruída aposto que achariam esperma de algum cliente ou ajudante. No final ela não passava de uma puta que encontrei durante uma viagem. Isso não importa mais.”

Ela o traiu. O conselho administrativo o traiu. Seu irmão adoraria vê-lo se perder no seu próprio desespero. Todos lhe deram as costas. Ele não pode culpa-los. Se pudesse também daria as costas para aquela figura decadente encolhida junto dos destroços de um notebook.

Gostaria de desistir de tudo, mas alguma coisa o impede. Entre uma serie de pensamentos acaba se lembrando d’O Iluminado. Já dominado pela loucura, Jack Torrance repete varias vezes coisas como “Venha e tome seu remédio como homem, seu cretino” e “Juro por tudo que vou fazer esse merdinha tomar o seu remédio” enquanto seu taco de roque assobiava pelos corredores escuros no meio das montanhas.

“Eles me traíram. Ele está brincando comigo. Que tipo de homem eu seria se não me vingasse?”

Se levanta e vai até um dos armários perto da televisão.

“Não tenho um bastão de roque, mas também tenho um jeito de obriga-lo a tomar seu remédio.”

Pega seu velho revolver Winchester e analisa sua empunhadura.

“Afinal que tipo de homem eu seria se não pagasse na mesma moeda?”

Já se fez essa pergunta a muitos anos. Talvez encontre finalmente a resposta.

“A matriarca Winchester era atormentada pelos espíritos das pessoas mortas por suas armas e mandou construir uma mansão com portas e escadas falsas, quartos invertidos e outras armadilhas para afugentar os fantasmas. Não preciso me preocupar com os mortos, no momento meu problema é um cretino que, tenho certeza, está vivo.”

Mira no aparelho de som e atira. O som grave ecoa pelas paredes. A casa permanece em silencio.

“Pelo menos por enquanto.”

A chuva ainda cai enquanto ele chora copiosamente em um canto da sua sala à prova de som. Não há problemas em um homem perder as esperanças e desabar, desde que ninguém esteja vendo. A única pessoa que o lembrava de que fora daquele jogo doentio havia um mundo feliz, agora estava morta. Destroçada, sua esposa o havia deixado sozinho. Não. Aonde quer que esteja o maníaco estava o observando, pronto para o próximo movimento nesse tabuleiro torto e gastos onde as peças estavam espalhadas.

Se senta na sua velha poltrona e começa o ritual de beber e fumar novamente. Teria que esperar o próximo movimento do seu oponente se quisesse realmente acabar com isso. Enquanto acende um cigarro seu notebook, em cima da mesa de centro, emite um bip. Havia recebido um e-mail. Alias dois.

O fato de seu próprio e-mail pessoal ser o remetente não o incomodava mais. Ficou surpreso por estar olhando para um possível final dos acontecimentos que começaram naquela manhã chuvosa de terça. Que tal irmos brincar no meu balanço favorito dia 25? Aquela pergunta infantil significava que em três dias tudo poderia acabar. “Finalmente esse merda vai sair do buraco sujo onde se esconde e me falar o seu preço. Em três dias vou voltar a ter uma vida normal de novo.”

Passa os olhos pelo titulo do segundo e-mail enquanto toma um gole de uísque e acende outro cigarro. Você choraria por alguém capaz de fazer isso? Tragando e soltando a fumaça de maneira preguiçosa ele pensa no significado daquela frase. “Aposto que ele espera que eu fique surpreso com isso. Devem ser fotos da época que Alice era uma prostituta. Isso poderia ser um choque para os nossos amigos, mas me casei sabendo da antiga vida dela. Mas realmente estou curioso para saber como ele as conseguiu.”

Um bocejo cortado pela tosse o faz perceber que está com sono. Aperta o botão para desligar o notebook, mas nada acontece. A seta do mouse começa a se mexer. “Tomou o controle do meu notebook. Pois bem, me mostre logo o que você quer.” Com um clique o segundo e-mail é aberto. Ao invés das fotos da sua mulher há apenas um arquivo anexado. Um vídeo de cinco minutos.

Depois de alguns segundos de estática era possível ver um homem entrando no foco da câmera, como se tivesse acabado de liga-lá. De repente, provavelmente colocada na edição do vídeo, começa a tocar Police Truck do Dead Kennedys. O homem para no meio da sala, olha para a direita e volta para a câmera. É possível vê-ló mudando a direção da câmera. O novo foco da câmera mostra alguns cavaletes, uma porta branca aberta para um quarto escuro e grandes janelas com vista para um jardim. “É o estúdio da Alice.” Mais alguns segundos de estática e o verdadeiro show começa. Embalados pela voz de Jello Biafra, sua mulher e um homem estão entrelaçados numa apresentação doentia de bondage. Tony já praticara bondage com sua mulher algumas vezes, mas sempre teve medo de machuca-lá de verdade. Mas lá estavam, imortalizadas em uma câmera, as imagens de sua mulher se derretendo em orgasmos enquanto apanhava de um desconhecido. A musica termina e começa novamente.

“Uma puta...”

Os gemidos aumentam à medida que aquele homem explora aquele corpo esbelto e branco que Tony achou pertencer a ele.

“Ela era uma puta quando nos conhecemos...”

Os gemidos são encobertos pela musica.

“... ela não podia ter filhos por causa de um aborto mal feito. Eu a amava. Eu fiz de tudo para ela ter uma vida normal...”

Seus longos cabelos loiros sobre a mesa fria no centro do estúdio. O homem esbarra em um dos cavaletes derrubando tinta pelo chão.

“... e ainda assim ela era uma puta suja!”

Agora acabou. Os gemidos da mulher e os acordes finais da musica se tornam agudos e destorcidos. O mesmo som é repetido cinco vezes.

O grito. O som de osso quebrando.

Seu grito ecoa nas paredes brancas do aposento. Aos seus pés, os destroços do notebook. A musica parou, mas continua ecoando em seus ouvidos. O grito e o som de osso quebrando.

A chuva que cai lava a cova recém-aberta. Homens e mulheres de preto se reúnem para a ultima homenagem para Alice Taylor Cougar. Parentes, clientes da galeria e conhecidos começam a se dispersar quando as primeiras pás de terra são jogadas sobre o vistoso caixão de mogno. Agora que todos foram embora, ele observa o trabalho dos coveiros em tampar aquela ferida aberta no meio do gramado da ala sul do cemitério municipal. Ele não se importa com a chuva lavando seu rosto e seus pontos abaixo do olho.

Começa a caminhar para o estacionamento. Não há mais nada para ver. O corpo destroçado de sua mulher jaz embaixo da lama agora. A logica lhe diz que foi apenas uma fatalidade, mas ele sabe que não. “Foi esse maldito. A pericia encontrou estranhos cortes nas tubulações do óleo de freio e direção hidráulica que não pareciam ser decorrentes do impacto do carro contra a encosta.” As lagrimas saem dos seus olhos e se confundem com a chuva que cai. “Devia chamar a policia. Mas não tenho provas. Os remetentes desses malditos e-mails são meus e-mails pessoal e profissional. O hacker que eu paguei não conseguiu descobrir o IP do cretino. Sei que a policia me considera suspeito. O que tiver que fazer, vou ter que fazer sozinho.”

Se estivesse calmo pensaria de outra forma. Mas a logica não é mais importante. Isso é uma guerra. E guerras são criadas e ganhas pela loucura.

Está sentado na poltrona de couro surrado na sua sala a prova de som. Na sua frente, além da bebida e do cinzeiro habituais, há vários álbuns de fotos espalhados pela mesa de centro e pelo chão. Enquanto o resto do mundo usa suas câmeras digitais Alice ainda era fiel ao filme. Ela revela as fotos no quarto escuro do seu estúdio. Estão lá os registros das ultimas viagens e festas. O gelo do copo já começa a derreter. “Alice realmente está demorando.”

Na parede ao lado da escada o sistema de som toca alguns acordes destorcidos. “Marilyn Manson, suponho.” Conforme o tempo passa as lembranças ficam mais velhas. Os primeiros anos de casamentos, a lua de mel na Alemanha, as farras da época de solteiro, os anos da faculdade, as festas do colégio, os jantares e reuniões familiares, as brincadeiras de criança, o balanço

(descreve uma parábola em direção ao barranco)

na ponta do velho carvalho.

Sempre que possível seu pai arrumava as pessoas para tirar uma foto seguindo algum padrão: altura, idade, parentesco, etc. enquanto sua mãe costumava escrever os nomes das pessoas no verso das fotos. Entre todas as fotos uma chama sua atenção: formando uma estupida pirâmide etária uma foto dele com os irmãos durante uma reunião de família. Eram cinco irmãos: Ele e Fred por serem os caçulas estavam nas pontas da pirâmide, Frank estava ao seu lado, Bety do lado do Fred e no centro o Will. Apesar dele e Fred serem gêmeos idênticos, uma pequena cicatriz abaixo do olho esquerdo de Fred tornava fácil à diferenciação. Essa cicatriz foi causada por um acidente de bicicleta poucas semanas antes da foto ser tirada. Vira a foto apenas para ver a bela e curvada caligrafia de sua mãe. “Da esquerda para direita. Meus amores: Frederick, Frank, William, Roberta e Anthony.”

Seu cérebro leva um segundo para perceber que algo está errado. Olha novamente a foto. Ao lado da irmã, que estava usando um vestido rosa e botas marrons, está aquela figura pequena usando camisa branca e shorts azuis. No rosto uma cicatriz imitando um sorriso que uma criança dá ao ser pega aprontando. Era Fred Cougar.

“Teria ela se engando? Eu, às vezes, fingia que era Fred e vice versa. Mas depois do acidente isso era impossível.” Respira profundamente. “É isso. A foto foi tirada de longe e o dia está meio escuro. Isso que eu acho que é uma cicatriz por ser só uma sombra. A cicatriz dele era pequena, logicamente não é possível vê-la em uma foto tão antiga.”

Mesmo a logica falando que se trata de algum engano seu desconforto aumenta cada vez mais conforme vê aquele pequeno garoto com uma cicatriz no rosto ser chamado por seu nome, Anthony, em cada vez mais fotos. Começa a falar sozinho, como que querendo convencer a sala que aquilo é um engano, e percebe que sua voz está pastosa. Estaria ele bêbado a ponto de imaginar uma cicatriz no seu rosto de 36 anos atrás?

“This isn’t me I’m not mechanical

I’m just a boy playing the Suicide King…”

Finalmente encontra aquilo que vai provar que tudo está bem. O álbum do período da sua internação no hospital psiquiátrico.

Era um prédio branco muito grande. O belo estilo barroco do prédio quase desviava a atenção das grossas barras de metal nas janelas e do cheiro de urina, sangue, fezes e carne queimada pelos corredores. Ao menos seu pai havia pagado o suficiente para que ele pudesse ficar na ala “humana” do hospital. Lá as grades eram mais finas e o cheiro podre era ofuscado pelo uso maciço de desinfetante.

Logo provaria que todas as outras fotos estavam erradas. Anthony Cougar nunca teve uma maldita cicatriz no rosto. Ali está. Já calmo pelo uso forçado de remédios os médicos tiraram uma foto para mostrarem os progressos no tratamento. O lençol branco puxado até o pescoço cobria as correntes em seus braços e pernas.

Está perdendo o controle de novo. Na foto, um garoto com olhar vago rodeado por enfermeiras. Ela está lá. Abaixo do seu olho esquerdo, com seus cantos repuxados, a cicatriz está sorrindo para ele. Está rindo dele.

Seus gritos são abafados pelas palavras saídas do sistema de som.

“Playing the Suicide King...”

Mesmo que Alice estivesse em casa ela não ouviria o pedido desesperado de seu marido por socorro. Ouviria apenas o silencio habitual da noite.

“Calma! Simplesmente eu estou bêbado e estou vendo coisas. Quando Alice chegar nós vamos transar. Vou fumar enrolado nas cobertas enquanto ela limpa o gozo das coxas. Amanhã quando estiver sóbrio vou ver que as fotos estão normais e eu não tenho nenhuma cicatriz no rosto.”

Está alimentando essa esperança quando o telefone toca.

― Sr. Cougar?

― Sim. Quem fala?

― Aqui é o delegado James. Sinto dizer, mas sua mulher sofreu um acidente de carro e morreu no local.

Ele derruba o telefone. A sua mentira já está desmoronando.

Passaram-se poucos minutos do meio dia quando ele estacionou seu Mercury na garagem de casa. Na caixa ao seu lado alguns retratos e papeis que ele julgou importantes. Limparia o resto da sala na segunda feira. A garagem, sempre tão limpa e organizada como um hospital estava com uma camada de poeira sobre tudo, já que ele não havia ao menos entrado nela desde o incidente com a chave. No local onde aconteceu era possível ver gotas do seu sangue no chão de madeira. Inconscientemente toca os pontos abaixo do olho. Seu sangue

(fluindo pelo corte na cabeça... tingindo a água limpa do rio)

pequenos pontos vermelhos no chão cor de terra.

Olha para o outro extremo da grande garagem e vê a vaga vazia do Beetle amarelo de Alice. Nunca andaria naquela coisa. Quando saiam juntos usavam seu Mercury ou a velha RS2 Avant azul guardada junto do Beetle. Aquele monte de aço amarelo não lembrava em nada seu velho Bug preto fosco, companheiro de tantas saideiras durante a faculdade. Talvez, quando estivesse passando pela crise da meia idade e estivesse procurando incansavelmente a juventude perdida, comprasse um Beetle igual da esposa. Mas agora não.

Atravessa de maneira automática o gramado e toda a casa e vai direto ao bar do lado da cozinha. Acende um cigarro enquanto prepara um coquetel com saquê que vira na internet. Começaria a aproveitar essas férias forçadas de porre.

Estar sozinho na grande cozinha o deixa um pouco deprimido. O silencio pesado do local o faz pensar como se ninguém nunca mais fosse entrar ou sair por aquelas portas. É tirado de seu devaneio pela campainha ritmada do telefone. É Alice.

― Oi, Tony. O que você está fazendo em casa a essa hora?

― Você tinha razão. Fui chutado. E agora estou tomando um porre enquanto tento aproveitar minha nova vida de rico esnobe.

― Bom pra você. Enquanto isso, a plebeia aqui tem que trabalhar para garantir o pão de amanhã.

― Sabe – imita a voz de um cafetão de um seriado de TV – em troca de alguns favores sexuais eu poderia melhorar a sua situação financeira.

― Vou pensar – ouve risadas do outro lado da linha – Só liguei para avisar que vou ficar até mais tarde na galeria. Talvez chegue depois das onze.

Depois de mais alguns minutos de conversa trivial se despedem e a casa mergulha novamente no mais completo silêncio, só quebrado pelo barulho das bebidas sendo misturadas e pela tosse seca cada vez mais frequente. De certa forma está calmo, mas pode sentir a loucura crescente se esgueirando e preenchendo cada canto da casa enquanto o saquê desce queimando sua garganta e deixa um gosto amargo em sua boca.

―Tem certeza que está tudo bem você ir para a firma assim? Não quer esperar mais alguns dias?

Tinha a sua frente um prato raso com bacon e ovos. Sentada a sua frente, sua mulher continuava a falar como se preocupava com ele e continuava a perguntar se estava bem. Ele simplesmente não ouvia o que sua mulher dizia. Em sua boca um cigarro pela metade. Antes disso nunca havia fumado durante as refeições. Antes disso só fumava quando não tinha nada para fazer e depois de transar. Sempre achou cômica a imagem dele fumando enquanto sua mulher limpava o esperma das coxas. Como nos filmes antigos.

Mas agora fumava porque precisava.

Se houvesse algum espelho na sala de jantar poderia ver o mesmo que os olhos azuis de Alice fitavam. Um rosto vazio com a barba por fazer, um sorriso já amarelado pelo uso constante dos cigarros e um estupido corte abaixo do olho direito. Estava debaixo do carro quando a chave que estava usando para soltar um parafuso espanado escapou e acabou rasgando a carne de seu rosto. Não foi um corte grande, mas achou melhor ir ao hospital por precaução. Levou dois pontos. Provavelmente não ficaria cicatriz.

(teve sorte de alguma pedra não acertar seu olho, poderia ficar cego. Ao invés disso, ficou com um pequeno sorriso abaixo do olho esquerdo)

De tudo isso restou apenas uma foto tirada por Alice na saída do hospital. Ele se sentiu um idiota ao tirar a foto e se sente um idiota toda vez que a vê na mesa de centro da sala de estar. Parecia a foto de um soldado que havia curado suas feridas e pronto para continuar matando pelo seu país.

Nada disso importava. Aparentemente o maníaco o estava seguindo. Quando chegou do hospital recebeu outro e-mail: “Agora que somos iguais novamente você teria coragem de fazer aquilo de novo?” não importava que configuração ele usasse, esses estranhos e-mails nunca eram mandados para a lixeira.

“Esse maníaco não é só um bostinha. Ele sabe o que tá fazendo. Ele deve ter feito uma longa pesquisa para saber que meu irmão tinha uma cicatriz abaixo do olho esquerdo. Como ele podia saber disso?”

―... você mesmo fala que o conselho está procurando um motivo para te desligar da empresa.

Isso é verdade. Nos dias de hoje seria impossível manter uma firma dessas proporções sem capital externo. Logico que ele era o maior acionista, mas a politica da firma permitia que ele fosse desligado das funções na diretoria. Isso não afetaria suas ações, mas sentia que devia manter o único Cougar ativo na empresa. Devia isso a seu pai.

― Eu sei. Por isso mesmo eu tenho que ir. Isso é uma coisa estupida que eu chamo de orgulho masculino.

― Agora você parece o homem com quem me casei. Ah, já ia me esquecendo – entrega uma notificação em suas mãos – parece que a fazenda dos seus pais foi liberada do período de quarentena.

Ficou realmente surpreso. Seu pai, homem pratico e racional, havia recusado vender a fazenda para o governo após o acidente na usina nuclear da região. Isso foi há 29 anos. Dificilmente conseguiria vender a fazenda por um bom preço. Pelo jeito aquelas terras radioativas continuariam na família Cougar.

Sua mulher tinha razão. Durante uma reunião que durou 5 minutos havia sido destituído da sua função no conselho administrativo. Sabia que quando eles tivessem problemas voltariam como o rabo entre as pernas pedindo ajuda. Iria deixar as coisas como estavam no momento. Enquanto esvaziava sua mesa jogou fora a bituca do quinto ou sexto cigarro do dia.

“Se tiver um pouco de sorte talvez eu morra de câncer antes de ficar louco. Vou ser enterrado com um terno branco com os braços

(e pernas dobradas em ângulos estranhos)

cruzados e os dedos do meio levantados.”

Começa a rir, mas a tosse áspera logo vem lembrar que o câncer está realmente perto. Mas a loucura está ao seu lado.

Alice dormia no quarto. Sentado na poltrona surrada de couro tem a sua frente um copo de uísque e gelo e um cinzeiro já cheio. Do mesmo modo que Alice tinha um estúdio no jardim ele havia transformado o porão da casa em uma sala de estar à prova de som. Assim ele não incomodaria ninguém nem seria incomodado. Mas agora aquela sala, antes tomada por musicas de rock e as risadas bêbadas de jogadores de pôquer, estava tomada pelo silêncio. A grande televisão presa à parede era como uma mancha negra no meio do branco do quarto. Percebe que seus cigarros acabaram. Sua mente finalmente está lucida e ele consegue pensar nos fatídicos acontecimentos dessa terça-feira.

“Só pode ser algum tipo de maníaco. Já encontrei esses tipos antes. Não sei como ele conseguiu meus e-mails. Não consegui rastrear o IP do cretino. Não faço a menor ideia de como esse merda consegui minhas senhas.”

Lembra-se da vez que teve que desembolsar alguns milhares de dólares para fazer alguns hackers “esquecerem” algumas fotos antigas da sua mulher.

“Não é tão absurdo pensar que ele está blefando. Aquele dia foi noticiado por todos os jornais. Li uma dessas manchetes quando estava no hospital: ‘Filho de importante empresário da região morre durante brincadeira no fim da tarde’. Não tenho certeza, mas deve ter saído alguma notícia que seu irmão gêmeo passou por tratamento psiquiátrico. Qualquer imbecil poderia juntar os fatos e pronto: ameaça instantânea. Ele só estava blefando. Ninguém sabe o que realmente aconteceu.”

Era uma brincadeira. HAHA. Todo mundo iria rir. Seu irmão havia batido nele por andar mentindo. Que tipo de homem ele seria se não se vingasse? HAHA. Todo mundo vai rir. Ele substitui a corda do balanço. HAHAHA. Seu irmão iria cair de bunda no chão ao tentar subir no velho pneu faixa branca. HAHA. Mas a corda presa no velho carvalho não arrebenta e ele começa a se balançar. Para frente, para trás. Ele tenta segurar o riso. A corda arrebenta e seu irmão faz uma parábola em direção ao barranco da beira do rio. Era uma brincadeira. O grito e o som de osso quebrando. HAHA. Todo mundo riu. O sangue fluindo pelo corte na cabeça. HAHA...

O gosto salgado em sua boca o faz perceber que está chorando. O silêncio foi quebrado. Sua risada ecoa nas paredes e chega aos seus ouvidos como um som grave e doentio. A casa continua em silêncio. A loucura está presa entre as pareces brancas. A loucura quer sair.

Era seu quinto cigarro do dia. Nunca teve vontade desenfreada em fumar. Uma cartela de cigarro chegava há durar um mês em seu bolso sem nem ao menos ser aberta. Mas agora, sentado no banco do motorista de seu Mercury sentia um prazer imensurável ao tragar aquela fumaça toxica. Como se a fumaça invadindo seus pulmões expulsasse o

(sangue e água dos pulmões)

que havia visto.

Joga a bituca do cigarro pela janela. Agora está mais calmo. Começa a manobrar o carro para sair do estacionamento já deserto. Rodridez, o porteiro, já foi embora por isso tem que abrir o portão. Chegaria em casa em 15 minutos. 10 se não se preocupasse com semáforos e limites de velocidade.

Acende outro cigarro enquanto os largos pneus traseiros deixam faixas negras no chão. As ruas daquele bairro comercial eram desertas há essa hora, poderia testar do que o carro era capaz. Dobra a esquerda no fim da rua e toma um atalho. Chegaria em casa mais cedo. Alice estaria lá para reconforta-lo. A fumaça do cigarro bate em seus olhos. “Droga, sabia que não devia fumar dirigindo.” No segundo em que seus olhos estão fechados ele sente a batida. O inconfundível som de metais se chocando e de algo caindo no cascalho da viela. Para imediatamente e vê uma bicicleta azul caída no chão com seu quadro deformado e os aros apontando para o céu. Sai do carro ofegante e vai até os destroços. Não vê sangue nem um corpo. “Deve ser uma bicicleta abandonada.”

Por um momento perdera o controle. Não podia deixar que um simples e-mail o atormentasse. De volta ao carro percebe que não adianta fugir das lembranças que aquela maldita mensagem trazia. Devia confronta-las.

Da a partida e sai jogando cascalhos nos destroços da bicicleta. Ele não percebe que ela é exatamente igual a aquela na qual costumava andar quando pequeno. Se tivesse a observado mais atentamente poderia ver as iniciais AC e FC gravadas no guidão.